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		<title>the barefoot running book</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Jul 2010 23:06:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>caio1982</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quando eu comecei a me empolgar por correr descalço, e descobri que correr pode ser mesmo divertido, eu acabei caindo em alguns sites e depois em um fórum, um twitter e eventualmente em um post de um cara falando sobre o livro novo que ele tinha publicado sozinho sobre barefoot running. Apesar de eu ser [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando eu comecei a me empolgar por correr descalço, e descobri que correr pode ser mesmo divertido, eu acabei caindo em alguns sites e depois em um fórum, <a href="http://twitter.com/barefootjason">um twitter</a> e eventualmente em um post de um cara falando sobre o livro novo que ele tinha publicado sozinho sobre barefoot running. Apesar de eu ser um desconhecido qualquer eu pedi uma cópia me comprometendo a fazer um review do livro e&#8230; não é que ele me enviou um exemplar? Aqui está&#8230;</p>
<p><center><a href="http://www.amazon.com/Barefoot-Running-Book-Practical-Minimalist/dp/0615354440"><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2010/07/thebarefootrunningbook-front.jpg" alt="thebarefootrunningbook-front"/></a></center></p>
<p>O livro do <a href="http://jasonrobillard.com/">Jason Robillard</a>, cujo título inteiro na verdade é <a href="http://www.amazon.com/Barefoot-Running-Book-Practical-Minimalist/dp/0615354440">The Barefoot Running Book: A Practical Guide to the Art and Science of Barefoot and Minimalist Shoe Running</a>, na prática é uma espécie de livreto, booklet, de $12 se você for um sortudo com um leitor de e-books ou $15 se for importar normalmente pela Amazon, por exemplo. Não sei até que ponto é um preço justo, me parece um pouco acima do esperado pra um livro de apenas 60 páginas. Na verdade ele ser curto e objetivo (afinal é um guia prático) é uma vantagem muito boa, mas é mais o tipo de livro que você compraria no aeroporto do que em um safari pela sua megastore favorita. De qualquer forma, não por ter recebido o meu de graça mas por achar que ficou bem feito e poder ser uma forma de curiosos conhecerem barefoot running, eu recomendo o livro com certeza!</p>
<p>Uma coisa boa sobre o livro bastante honesto do Jason (segundo ele toda a produção e publicação ficou por conta dele, sem intermediários, algo bastante corajoso considerando que ele é um ultramaratonista só tentando &#8220;espalhar a palavra&#8221; por conta própria) é o humor e as piadas que ele tentou botar no meio do texto. Até hoje meus amigos riem de mim por correr descalço, e acho que só com piadas pra você quebrar o gelo mesmo. Porém chega uma hora que até boas piadas não são suficiente, e no caso do livro do Jason a diagramação e tipografia me obrigavam a parar de ler com bastante frequência até. Provavelmente pra economizar e simplificar a editoração os textos eram longos, parágrafos quadrados demais, margem pequena etc. Uma melhorada nisso viria a calhar. Como viria a calhar remover algumas exclamações exageradas também&#8230; eu imagino alguém cético lendo o livro e com tanta exclamações eu imaginaria um adolescente ou alguém tão empolgado em te convencer de algo que esquece de dar um depoimento mais sério que realmente convence.</p>
<p>Apesar de achar que algumas ilustrações comparando barefoot running com estilo tradicional calçado seriam muito bem vindas (e deixariam o &#8220;guia prático&#8221; ainda melhor), o Jason usou em um momento dois perfis de pessoas e treinos possíveis que gostei muito, ficou didático e até me identifiquei: um cara adulto por volta dos 30 que nunca correu e queria começar e uma corredora quase profissional de 20 e poucos anos. As duas figuras, meio Alice &#038; Bob de RFCs, ficaram legais. O livro todo passa outra idéia que gostei muito: humildade na corrida. Por todo o livro se vê uma série de dicas de comportamento em relação a outros corredores &#8211; profissionais ou não e curiosos que nunca viram alguém correndo descalço &#8211; com as quais concordo. Quando comecei a correr no parque aqui perto comecei a fazer amizades com outros corredores na base do sorriso e dando olás sem graça por correr descalço e funcionou. Segundo o Jason (fã quase declarado do George Sheehan de tantas citações dele pelo livro), já que barefoot running é algo meio exótico pra maioria, vale a pena ser um tipo de embaixador gentil que mostra que correr descalço é primeiro uma diversão, depois um esporte.</p>
<p>Infelizmente não vi menção alguma a correr descalço em praias. É um ambiente onde já corri, é muito bom, divertido mas que esperava ver no livro; o livro menciona grama, asfalto e concreto, sobre pedregulhos, trilhas, esteiras e neve como ambientes de corrida. Outra coisa que senti falta foi uma bibliografia integrada ao texto por rodapés, e se possível mais abrangente, o livro tem uma lista curta de leituras no final somente e tenho certeza que muito mais foi pesquisado. Queria também ter visto um background evolucionário sobre corrida descalça, o Jason parece ter como público o pessoal norte-americano sedentário aparentemente, então acho que teria sido legal falar porque correr descalço deveria ser óbvio na mente das pessoas&#8230; mas não é.</p>
<p>Apesar de em alguns momentos o livro ficar um pouco repetitivo, ele bate quase totalmente com a minha experiência de correr descalço. Não sou profissional. Até ontem eu era gordo, muito gordo. Eu não sabia que correr podia ser tão legal, e descobri isso quase sozinho e fiquei surpreso por ter chegado nas mesmas conclusões e ter passado pelo mesmo processo que o The Barefoot Running Book recomenda. Hooray! Pra ficar perfeito o livro só precisaria explicar de forma simples e clara como é exatamente correr descalço, muitas pessoas na internet se perguntam &#8220;estou correndo direito?&#8221; em fóruns. Apesar de não ter um jeito universal de correr, é uma dúvida frequente que acho que deveria ser respondida, não só em texto mas também em infográficos&#8230; por que não? Enfim, se passar numa livraria de aeroporto ou tiver créditos na Amazon, leia o livro, é curto e vale a pena. Se você já correu alguma vez na vida ou se nem faz idéia pra que seus pés servem, leia, novas idéias nunca fazem mal.</p>
<p>Se quiser ir pra algo mais transcendental e ler o que atualmente chamam de a bíblia sobre corrida descalça, leia o <a href="http://www.amazon.com/Born-Run-Hidden-Superathletes-Greatest/dp/0307266303">Born To Run</a> (traduzido como <a href="http://books.google.com/books?id=ct7GSAAACAAJ&#038;dq=nascido+para+correr&#038;hl=en&#038;ei=-Y8_TPTxFcH68Abvo7jACg&#038;sa=X&#038;oi=book_result&#038;ct=result&#038;resnum=1&#038;ved=0CCwQ6AEwAA">Nascido Para Correr</a> e já publicado no Brasil). Li ambos e apesar de parecer auto-ajuda digo que minha vida mudou, e isso porque sou um amador qualquer ainda meio sedentário. Daqui um mês participo, se tudo der certo, da minha primeira corrida oficial. Correrei descalço. Conto como foi em breve, mas de uma coisa já tenho certeza: vai ser divertido :-)</p>
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		<title>escotismo</title>
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		<pubDate>Sat, 15 May 2010 00:37:38 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Não fale palavrão nem converse alto. Não fale por trás, é fofoca. Não fale mal de nada. Não critique. Não se arrisque. Sempre veja o lado positivo. Sempre lembre que alguém está numa situação pior que a sua, e sinta por isso. Nunca minta. Seja discreto. Faça a barba com frequência, use loção. Respeite toda [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não fale palavrão nem converse alto. Não fale por trás, é fofoca. Não fale mal de nada. Não critique. Não se arrisque. Sempre veja o lado positivo. Sempre lembre que alguém está numa situação pior que a sua, e sinta por isso. Nunca minta. Seja discreto. Faça a barba com frequência, use loção. Respeite toda sua família. Trabalhe das oito às dezoito. Escova os dentes sempre após cada refeição. Lave a mão quando for ao banheiro. Não faça brincadeiras físicas, pode machucar gravemente. Se não puder falar bem de alguém fique quieto. Coma saladas e frutas todo dia. Zele pelo bom português. Tenha um plano de previdência, é muito importante. Esteja sempre de unhas cortadas. Não vista roupa amassada. Passe lustra móveis no rosto todas as manhãs. Seja inclusivo. Não arrote. Não emita ventosidades pelo ânus. Use eufemismos. Não se esqueça de botar sua sugestão na caixinha, dobrada pela metade milimetricamente. Só jogue jogos educativos. Durma de lado, é mais saudável. Não seja ateu. Decore frases de efeito, mas só as use com cara séria. Faça um coração com as mãos pra câmera. Não compactue com a pirataria. Mastigue seus bocados trinta vezes. Elogie mesmo quando não for necessário, todo mundo gosta. Nunca blasfeme. Sexo só papai-e-mamãe, gozando junto e com as mãos entrelaçadas.</p>
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		<title>vitimização e dor alheia</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Apr 2010 23:06:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>caio1982</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[colagem de anotações, viagens, pensamentos, coisas editadas através de vários dias e humores]
Eu nunca gostei muito da idéia de me fazer de vítima, e por não gostar acabo sempre me levando a abominar isso nos outros. É difícil definir o que é se fazer de vítima, mas como é algo que todo mundo já ouviu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[colagem de anotações, viagens, pensamentos, coisas editadas através de vários dias e humores]</p>
<p>Eu nunca gostei muito da idéia de me fazer de vítima, e por não gostar acabo sempre me levando a abominar isso nos outros. É difícil definir o que é se fazer de vítima, mas como é algo que todo mundo já ouviu ou presenciou pelo menos uma vez na vida acho que o significado comum é bom o suficiente. Da vitimização materna e paterna fazendo charme pros filhos, que todo mundo sofre em algum momento, à de amigos ou terceiros na rua. Recentemente comecei a pensar bastante nisso e como isso andava me afetando, na maioria dos casos me fazendo pegar raiva de certos tipos de comportamento, e então ao invés de ficar pensando e falando como a vitimização dos outros me irrita bastante, como se fosse um velho chato, eu decidi dar uma chance e comecei a pensar, a partir de umas memórias quase esquecidas, como eu poderia fazer igual mas não o fiz. Como eu tinha tudo pra me encaixar no papel de vítima do sistema, ou vítima divina, ou vítima de XYZ mas consegui me recusar a isso e como passei a detestar qualquer coisa que lembrasse remotamente esse tipo de atitude.</p>
<p>Pra mim vitimização parece fazer sentido como tentar se tornar vítima de um acontecimento qualquer, de forma consciente ou não, invariavelmente tirando de si a responsabilidade pelos próprios atos e abrindo mão do comando da sua vida num momento XYZ, como se alguém te devesse alguma coisa ou devesse fazer algo no seu lugar porque você é frágil demais. Isso costuma apitar trocentos tipos de alarmes pra mim. Claro que todo ser humano vai se fazer de vítima em algum momento, querendo ou não é parte da nossa natureza quem-não-chora-não-mama e acontece até com bastante frequência eu diria, mas algumas pessoas tem isso como modo padrão de se comportar. Ignorando a origem da palavra vitimização e o significado absoluto dela, afinal nem sei se a palavra existe realmente, virtualmente toda criatura no planeta sofreu, sofre ou sofrerá. De alguma forma, em algum momento.</p>
<p>Cheguei nisso após lembrar e pensar um pouco pelo que vivi quando era uma criança e adolescente mais ou menos normal. Não é um assunto que goste de falar em público (por ignorância popular e preconceito, não faço questão tampouco culpo ninguém) mas percebi então que já tinha resolvido esse problema comigo mesmo, virou algo que não poderia me afetar mais e talvez fosse bom botar pra fora, até mesmo pra quem eu amo e quem diz me amar compreender melhor isso. Começou meio como aquela coisa de escrever no caderno em momento de nervosismo e depois de dias rasgar e jogar fora, enfim. Nunca gostei de papéis de vítimas porque eu sempre tentei não me botar em um, quase como tarefa diária, tentei ao máximo me segurar. Em retrospecto, acho que fui muito bem sucedido apesar da condição de epiléptico.</p>
<p>Sempre neguei pra mim mesmo que eu tinha um problema. Pensando novamente naquela época, provavelmente foram meus pais que mais martelaram na minha cabeça que eu era de fato normal, não tinha problema algum e que epilepsia era &#8220;ok&#8221;, mas as caras de preocupação deles, os pânicos por não ter tomado meus remédios algumas vezes e o que eu sentia dentro de mim me diziam o contrário. Hoje eu consigo ver isso. Eu nunca me senti normal, esse é o problema, pra mim eu sempre tive e sempre terei um defeito, por mais que me digam o contrário. O que ganhei ou perdi tendo esse defeito é outra história, mas eu tinha medo até pouco tempo de me &#8220;assumir&#8221; por receio de querer aparecer, já que no meu próprio círculo de amizades era relativamente fácil achar um coitado chorando pelos cantos da internet e eu simplesmente não queria ser associado a eles.</p>
<p>Eu não consigo lembrar direito até hoje como tudo começou, mas lembro de estar jogando Atari na sala com alguns colegas do bairro (provavelmente Frostbite, meu jogo favorito quando moleque lá em Tucuruí, no Pará). Eu lembro de subir no sofá que ficava próximo a janela, que pela casa ser acima do nível do terreno era bem mais alta que uma janela qualquer. Lembro de botar um pé entre o vão do sofá e a janela e outra perna pra fora da casa, meio montado como se o batente da janela fosse um muro. Eu estava balançando as pernas. Só lembro disso e de acordar em um hospital com a sensação de despertar após dormir um sono pesado. Pra mim nada tinha acontecido, mas pra quem estava lá eu, sabe-se lá como, despenquei de cabeça pro lado da rua onde era de cimento. Tenho em vídeo uma cena que mostra essa parte da casa e quando revi outro dia a fita eu me assustei com a altura, desde meus 9 anos eu não via o lugar, confesso que me arrepiou um pouco rever uma simples&#8230; janela. Nunca entendi direito o que aconteceu, meus pais nunca explicaram isso pra mim provavelmente porque os médicos também não sabiam explicar pra eles: tive minha primeira convulsão antes ou depois de cair da janela?</p>
<p>Minha segunda crise foi durante um banho de manhã, ainda lá em Tucuruí. Nas manhãs eu acordava e vez ou outra ia para o banheiro que ficava no quarto dos meus pais e todo mundo se arrumava pra ir pra escola e ir trabalhar. Lembro de estar me lavando e o banheiro estar cheio de vapor com meu pai lá e minha mãe se arrumando. Depois disso só me lembro de estar vomitando todo torto dentro do carro de alguém, e depois acordando numa maca tomando soro ou coisa parecida. Não sei se apaguei durante muito tempo, em todas as vezes eu não tinha memória de nada antes, durante ou depois, só depois de muito tempo elas começavam a vir em pedaços. Mas essa vez foi diferente da primeira porque eu estava só com meus pais, então eles me viram pela primeira vez tendo uma convulsão, não sei o que sentiram. Na primeira meus amigos provavelmente ficaram assustados, e de certa forma hoje fico aliviado de não terem me visto uma segunda vez, éramos todos muito meninos, pelo menos meninos demais pra esse tipo de coisa eu imagino. Até hoje consigo descrever em detalhes físicos absurdos tanto a sala quanto o banheiro onde as duas primeiras crises aconteceram.</p>
<p>No começo da adolescência tive mais uma crise, durante um treino de karatê já morando em Praia Grande, litoral de SP. Só lembro de estar fazendo alongamentos no pescoço quando aconteceu: pescoço pra um lado, pro outro, pra frente&#8230; pra trás e chão. Reto, rígido, olhos virados com mãos e pés curvados pra dentro pelo que ouvi dizerem. Acordei deitado em um banco de madeira em um corredor que dava pros fundos da academia, na minha cabeça não lembro de ninguém ter ficado comigo nem ter me ajudado a ir pra casa. Se teve alguém eu realmente não me lembro, mas foi isso que nos meus 12 anos me fez perceber que eu estava sozinho, por conta própria, e não deveria esperar dó, pena ou um papel de vítima pronto da mão de ninguém. Desde aquele primeiro incidente, desde o segundo, desde o terceiro em diante meus exames nunca mais foram normais, sempre indicavam alguma &#8220;diferença&#8221; no resultado esperado: ou riscos de um gráfico diferentes do normal, ou valores numa tabela acima ou abaixo de alguma expectativa qualquer. &#8220;Fica tranquilo meu filho, mas um dos lados do seu cérebro tem fios desencapados e soltando faíscas, às vezes dá curto&#8221; parecia ser a analogia favorita de todo mundo. Parabéns, você agora faz parte de um seleto grupo de pessoas no mundo que tem um problema antigamente visto como possessão demoníaca contagiosa. Ótimo, fico feliz por ouvir isso. Sério, fico mesmo.</p>
<p>Aproximadamente dos meus 8 aos meus 21 anos eu tomei remédios que eram pra controlar a epilepsia, como Tegretol e Depakene (famosos entre epilépticos mas que ninguém se importou em me contar que eram usados por bipolares e esquizofrênicos também, provavelmente pra não me assustar por pouca coisa) ou pra compensar os efeitos negativos deles mesmo, como cápsulas de Forten e os gigantescos comprimidos de Supradyn, que tomo até hoje quando me sinto cansado demais. Possivelmente eu tentei outros remédios no meio do caminho, mas eu não tenho memórias boas de nenhum pra dizer com total certeza. Sei, porém, que parte das minhas sonolências e preguiça era por causa dos remédios e fico feliz de não tomar mais nada que me deixe minimamente fora de um estado normal de razão. Pra ser bem franco eu não sei se lembro de todos os remédios nem a quantidade, eu simplesmente tomava, eu engolia qualquer coisa que os médicos e meus pais mandassem. Até porcarias de homeopatia eu tive que engolir, sessões inúteis de acupuntura, até ir levado contra minha vontade em centros espíritas eu fui. Mas eu entendo meus pais. Eu sabia que precisava de remédios pra ficar &#8220;bem&#8221;, então por oposição eu concluí muito cedo que eu não estava bem nunca. Algum tempo antes de sair da casa dos meus pais eu parei de tomar o último deles (Depakene), e desde então tenho me controlado pra tomar menos remédios pra dor de cabeça também, mas isso é bem mais difícil. Eu ouvia dizerem que existia a chance de eu tomar remédios pra sempre, mas com esforço o tratamento resolveria tudo. Já das dores de cabeça eu tenho certeza que não me livrarei jamais.</p>
<p>Aprendi com o tempo a conviver com as dores de cabeça, houve tempo que eu tomava em goles os remédios pra tentar aliviá-las, quase não sentia efeito deles mais. Aí comecei de propósito a aturar mais elas pra não depender tanto de remédios que poderiam sei lá como não fazer muito bem. Desde a minha infância eu sinto dores de cabeça praticamente todos os dias mesmo, então valia a pena tentar e funcionou. Sempre que ouço alguém falar de dor de cabeça me lembro das minhas, penso que &#8220;está reclamando por nada&#8221; e me recordo das vezes que sentia pontadas tão fortes que chegava a entortar o rosto quando tava sozinho e podia deixar a dor fluir, ou ter de fingir que era bobagem na frente dos outros enquanto tudo doía demais. Minha cara feia nas manhãs? Dor de cabeça. É difícil pra mim até de vez em quando relaxar o rosto e a expressão franzida, naturalmente cultivada com certo orgulho mas muito por causa das dores de cabeça. Nesse exato momento em que estou digitando tudo isso eu estou com dor de cabeça, dando puxadas no lado esquerdo da parte da frente da cabeça.</p>
<p>Não tem um canto da minha cabeça que não tenha doído até hoje, e de formas variadas. Tem a que pulsa lentamente mas com extremos fortes, tem a que pulsa rápido e você se acostuma bem, tem o tipo que dá pontadas aleatórias que me fazem até dar uma tremida, tem as de deixar a frente da cabeça pesada quase tombando, tem as da base de trás da cabeça, tem as comuns nas têmporas, tem uma bem dolorida no topo da cabeça que parece alguém apertando pra baixo, tem uma que parece que entra raios de luz pelos olhos e refletem em cantos aleatórios no fundo da cabeça como se ela fosse vazia, tem a de hipersensibilidade que qualquer luz mais forte ou som agudo faz tudo brilhar e ecoar trinando no ouvido, mas a minha raríssima porém sempre preferida é a que dói a cabeça toda o tempo todo como um inchaço e sinto como se fosse entrar em combustão espontânea de tanto calor.</p>
<p>Hoje as tenho mais brandas, ou pelo menos já me acostumei demais, mas logo que comecei a morar sozinho eu entrava em desespero mais facilmente por causa delas e tentava sempre não demonstrar que eram difíceis. Virou costume ficar no escuro em silêncio com a cabeça molhada perto de alguma fonte de vento, pra refrescar, como eu às vezes fazia ainda quando morava com meus pais mesmo, tentando sincronizar as ondas de dor pra poder respirar, louco pra meter uma broca de furadeira no meio da minha testa pra fazer a dor parar de uma vez. A paranóia com elas era constante, sempre ouvi os neurologistas e meus pais falando que elas eram o primeiro sinal antes das luzes, e essas o primeiro sinal antes de passar mal, ter a piscada final, escurerer e ter uma convulsão. As tais luzes devem me perseguir até hoje, sabe aquelas bolinhas coloridas que se vê quando olha pra uma fonte de luz num certo ângulo, tipo em fotografia? É algo parecido com isso, só que piscando sem parar em todos os lados, aleatoriamente, e sem você conseguir focar em nada. Ainda vejo elas um pouco quando fico muito exausto mentalmente e fisicamente, mas não aparecem mais com as dores de cabeça, o que pra mim é curioso (e não sei explicar).</p>
<p>A última vez que as vi com frequência diária já vai tempo, talvez um ou dois anos. Foi quando refiz minha última bateria de exames pra rechecagem e revivi um pouco do que pra mim eram aventuras de criança com pitadas de sadismo se você pensar que eu era um moleque sem entender o que estava acontecendo. Meus pais talvez tenham lembranças mais apreensivas e preocupadas, mas enfim. De todos os exames o meu preferido era a ressonância magnética ou tomografia do cérebro, nunca entendi se havia diferença entre elas ou qual eu fazia já que a forma era bem parecida: parece um sarcófago misturado com túnel do tempo e os resultados do exame são belas fotografias em corte do seu cérebro em todo o seu esplendor. Muito legal, acho bem geek até. Barulho grave constante, sons de catracas e máquinas fotográficas, salas frias só comigo dentro e uma jaula no meu rosto como se eu estivesse quase hannibalzado. Esse era tão divertido e relativamente aconchegante que eu cheguei a cochilar uma vez durante um exame, não sei o que começou a apitar e entraram correndo na sala pra ver se tava tudo bem.</p>
<p>O exame que eu mais detestava era o eletroencefalograma, eletrodos plugados no couro do cabelo, enfermeiras estranhas e metas impossíveis de se conseguir numa folha de papel que lembra muito aquelas medições de terremotos. Botavam uma lâmpada com luz estrobosfóbica piscando a um palmo dos meus olhos. Primeiro lentamente, depois de forma bem rápida, alternando. Durante os trechos rápidos ficava tão claro que mesmo de olhos fechados era tudo branco piscando. O mais difícil era quando pediam pra eu não mover os globos dos olhos, mesmo estando fechandos. Parece que cada vez que eu movia os olhos bruscamente enquanto o estrobo piscava na cara o exame falhava e tinha que recomeçar, dessa vez realmente sem mexer nada. Já tentou não mexer os olhos olhando pra uma lâmpada? Pois é. Não me pergunte por que não gosto de sair à noite, ir em baladas ou lugares com luzes piscando coloridas.</p>
<p>Eu sou muito grato por ter pais que se preocupavam, que faziam de tudo e me levavam onde fosse pra fazer exames e entender o problema. Não ignoro que tive privilégios e muita sorte nisso. Não é todo mundo que pode pegar um avião do meio do mato e ir pra capital mais próxima fazer exames. Até hoje tenho a recordação de Belém daquela época: lixo na rua, mangueiras enormes em praças e assistir Tron pela primeira vez. Pra mim viajar pra fazer exames era um misto de aventura com um protocolo que eu simplesmente tinha que seguir porque meus pais queriam. Se tudo isso foi um fator pra minha família voltar pra São Paulo eu não sei, mas gosto de pensar que sim pois provavelmente isso me ajudou. Médicos, exames e remédios no sudeste é bem diferente de médicos, exames e remédios no meio da Amazônia. Fui privilegiado tanto em cuidados quanto em gravidade.</p>
<p>Me recordo de uma vez indo entre cidades do interior de SP com um primo nas férias, entrando numa cidade vizinha qualquer vimos uma roda de pessoas e um cara deitado no meio da rua. Achei que fosse um bêbado, ou no máximo um acidente. Quando chegamos perto eu não sei o que estavam pensando, mas eu sabia que o senhor de roupa surrada no asfalto quente estava tendo um ataque. Ninguém ajudou o senhor, eu não ajudei, eu só fiquei olhando, parado. Ele provavelmente nunca nem soube pelo que passava. Algumas pessoas me viram ter os ataques, mas eu não fazia idéia como era de verdade, acho que ali foi a primeira vez que vi um outro epiléptico durante uma crise, não foi nada bonito mas me deu uma certa perspectiva. Já no fim da adolescência eu conheci em círculos de software livre um outro geek que sempre respeitei bastante mas que por motivos óbvios não tem como identificar aqui, ele sofre de uma doença degenerativa e ter conhecido ele, saber como ele era absurdamente competente no trabalho e em tudo o que fazia&#8230; foi iluminador também. Nunca pude me identificar com ele e falar isso, não sei se ele se ofenderia e duvido que ele acabe lendo isso, mas ele me inspirou por tudo o que deve ter passado e por onde chegou, meu problema era nada perto dos dessas pessoas.</p>
<p>Pra ser bem sincero hoje eu nem sei se sou ou se simplesmente fui epiléptico, mas continuo mais me identificando com eles do que com pessoas sem a condição. Eu sei que meu cérebro não é igual ao seu de alguma forma, ou se hoje ele clinicamente é, um dia não foi e ele teve que se adaptar em alguma coisa que desconheço. Por mais científico que isso devesse ser, afinal o cérebro é só um amontado de coisas mesmo, o resultado do que eu penso não é matemático, mas mesmo se fosse eu diria que 1+1 pro meu cérebro pode dar um resultado diferente e eu não saberia explicar mas sentiria mesmo assim. De qualquer maneira, jamais me viram me fazendo de vítima por causa disso, nem irão. Eu acredito que não tenho condição moral de me fazer de vítima e com todo o respeito e licença devida: provavelmente ninguém tem esse direito, fale o que falar.</p>
<p>Tenho noção que por mais que tudo isso soe bizarro e grave, não é tanto assim se você conhece algo da condição de ser epiléptico. Muita gente sofre de tipos de epilepsia muito piores que o meu, tem ataques com muito mais frequência e resultados bem mais catastróficos. Nem mesmo sou o único epilético na família, e até me surpreendo comigo mesmo por nunca ter investigado de verdade o que eu tinha. Muitos conceitos do problema e memórias que eu tenho são meio infantilizadas, pois a grande maioria é de quando era menino. Eu nem sei se cheguei a ter outras crises ou princípios delas, se meus pais e os médicos falavam que não eu tinha que acreditar já que não lembrava de nada. Foi só outro dia que descobri que o que eu tinha pareciar ter um nome, minha mãe havia comentado uma ou duas vezes mas eu tinha arquivado o que era, Síndrome de Janz, um tipo relativamente comum de epilepsia juvenil. Comum o suficiente pra ninguém chamar assim e simplesmente dizerem &#8220;epilepsia&#8221; mesmo. Mas com um nome bonito assim dá até pra posar de estiloso por aí e é claro que também eu soube me divertir com tudo isso, tinha que valer a pena já que era pra eu me foder. Até o colegial eu vivia assustando colegas me fazendo de louco, usei isso muito pra brincar de assustar as pessoas que não me conheciam ainda e se impressionavam ao ouvir de mim &#8220;epilepsia&#8221; pela primeira vez. Pegadinha do malandro! Se elas eram preconceituosas eu me dava o direito de ser filho da puta.</p>
<p>Tomar remédios, ir pra hospital, se sentir diferente, sentir dor&#8230; todo mundo pode passar por isso, e pra cada um será diferente, dor é subjetiva demais e não tem porque ficar fazendo drama para os outros por causa disso. Faça só pra você, criar um clube de minorias coitadas me parece uma saída fácil demais. Não existe experiência mais especial que a outra. Muitas vezes eu mesmo chorei seco, sozinho, com a cabeça prestes a explodir, achando que ia conseguir fazer a dor parar e com raiva de mim mesmo, por ter um defeito justo na parte mais importante do meu corpo. Eu me culpei muito por um tempo, como se eu pudesse fazer alguma coisa e não estivesse me esforçando o suficiente pra ser normal como meus amigos eram. Tive muitas paranóias secretas do tipo &#8220;será que sendo assim vou arrumar uma namorada igual os meninos da rua?&#8221;, &#8220;será que sou idiota de nascimento mas não percebo?&#8221;, &#8220;e se daqui X anos eu tiver outra crise?&#8221;, &#8220;acho que meus pais se arrependeram de me ter como filho&#8221;, &#8220;quem diz me amar me ama mesmo ou é pena?&#8221;, &#8220;será que contaram pra tal pessoa? ela me olha de um jeito estranho&#8221;, &#8220;porque ficam chamando fulano de gardenal? isso não é engraçado&#8221;, &#8220;será que não é melhor eu não ter filhos? vai que passa&#8221;.</p>
<p>Era eu ter o prazer de morar perto de uma praia mas não poder ir sozinho ou pro fundo no mar (embora nesse caso eu ía mesmo assim). Era me sentir independente por dentro mas não poder andar sozinho ou sem avisar como, onde e porquê, ainda que mesmo sozinho as preocupações eram sempre minhas companheiras. Era ter um formulário qualquer que eu era o único a preencher o campo de observações médicas. Era com extrema vergonha precisar avisar chefes e professores pro caso de haver uma emergência. O único na fila de cueca pro alistamento militar a carregar chapas da cabeça debaixo do braço, pro caso de eventualmente precisar exigir a dispensa. Mas ninguém, nunca, me ouviu falar disso como se estivesse me auto-depreciando. Talvez meus pais, provavelmente eles na verdade, tenham percebido tudo isso, mas nunca conversei muito sobre esses problemas com eles. Não tão abertamente, acho. Na minha cabeça com curto eles não poderiam jamais entender, eles não sofriam da mesma coisa. Se eu decido hoje comentar sobre tudo o que senti é porque não aguentava mais ver próximos de mim em situação parecida e eu não falando nada, é insuportável. Eu aguento um chinês do outro lado do mundo fazendo manha, eu aguento um mineiro lá longe, mas alguém do meu lado me irrita profundamente. Assim como ninguém consegue saber pelo que eu passei, tenho certeza que eu jamais saberei pelo que passam. Quer falar fala, só não fique martelando isso todos os dias no ouvido dos outros. Se é zero a zero, ninguém deve ganhar o papel de vítima do show.</p>
<p>Se falo tudo isso é porque resolvi ser meu próprio psicólogo conversando sobre isso comigo mesmo, ao invés de gastar dinheiro pagando pra outra pessoa me analisar. Isso talvez mostre o motivo de eu achar absurdo alguém tomar comprimidos pra depressão, gastar horrores com análise e ficar na internet choramingando em busca de migalhas de dó e colhendo só desprezo. A diferença pra mim é basicamente você querer dizer pros outros como você é um coitado que sofre, uma vítima de algo diabólico contra você, que tudo é muito difícil. Ninguém é tão importante pra ser vítima de coisa alguma. A vida é assim. Pronto e acabou. Me incomoda é quando a carência temporária vira o modus operandi da pessoa, ela vive em função do papel que ela criou pra si, forçando a imagem passiva dela esperando alguma coisa dos outros, nem que seja uma vantagenzinha mínima pra se aliviar ou um agradozinho por ser especial. Eu já passei por isso também, já toquei muito o foda-se quando era adolescente, forçava pra me cansar, forçava ficar acordado de madrugada com raiva de tudo e todos louco pra ter um ataque só por privação de sono e cansaço, covarde como era, e finalmente mostrar pros meus pais como é que se faz. Não, não acho que tenha valido a pena um dia sequer, eu era de um extremo amadorismo nisso.</p>
<p>Na minha filosofia de vida não há como evitar sentir dor, somente variar o grau e a duração, é parte de todo e qualquer ser humano. Eu mesmo em tudo o que falei aqui provavelmente não trouxe nenhuma novidade pra nenhum primata bípede dos últimos milhares de anos. Então, dizer diariamente que sofre, ou pior, que sofre mais que os outros, e se fazer de coitado ou vítima de algo não faz sentido algum e acaba só por ofender a inteligência alheia. Não há como dizer que se sofre mais ou &#8220;melhor&#8221; que ninguém, meta a mão na cara de quem disser o contrário na sua frente. Todo mundo sente dor, alguns gostam de dizer ela pro mundo e outros gostam de trabalhar ela internamente. Só isso. O porquê de eu achar um absurdo todo mundo ficar querendo mostrar sua dor pros outros seguiu até aqui, espero ter deixado claro com tantas repetições da mesma coisa como me parece ridículo pensar &#8220;mas você não sabe como eu sofro, não tem idéia de como é, é diferente!&#8221;. O que li outro dia através de comentários de amigos veio bem a calhar sobre tudo isso que eu andava pensando, aliás. Como a maioria das pessoas é exposta a culturas e histórias super dramáticas e melodramas feitos para serem insuperáveis elas tendem a se identificar e achar que a vida delas tem que ser igual: contos de fadas noir cheios de baixas depressivas, inesquecíveis e que deveriam virar um livro com final feliz, best-seller, vendo drama onde ele não existe. A vida é assim e só, não exagere.</p>
<p>É estranho que eu tenha vivido tudo isso na sombra, aceitando meus pais dizendo que &#8220;isso não é nada, é bobagem&#8221; mas vendo minha mãe segurar o choro olhando pra mim menino num consultório. Não sei por quanto tempo engoli isso, mas quando eu passei a dizer pra mim mesmo que eu era diferente, mas que aceitava isso, eu passei a viver melhor comigo mesmo, e isso é algo bem recente. Tenho certeza absoluta que tudo isso contribuiu bastante pro que eu sou hoje: minha recusa teimosa por qualquer religiosidade ou teísmo tem explicação nisso, minha independência de pensamento sempre forçada com medo de me sentir influenciado demais, meu niilismo e vontade de que sempre me deixem em paz, meu desprezo por quem faz cara de choro por qualquer coisa, até parte da minha grosseria e do meu humor eu vejo como um certo tipo de proteção criada a partir de tudo o que descrevi nesse texto, eu não me importo se incomoda. Tudo isso foi muito forte no que eu tenho agora como identidade, não posso ignorar que parte de mim depende dessa antiga e parcial identidade de epiléptico. Paciência, acontece. Espero sinceramente que durante esses anos todos eu só não tenha inconscientemente caído no papel de vítima doente, pois o contrário disso foi e sempre será meu maior objetivo. Todo mundo tem motivos, se todo mundo fosse fazer esse papel o mundo seria muito mais dramático (e insuportável) do que já é, por isso abomino qualquer um que tente se passar por isso. É egoísmo. Só não digo que é cuspir na dor alheia porque já sou frequentemente acusado disso mesmo, mas aí está toda minha justificativa.</p>
<p>Agora que eu já parei de fingir estar reclamando pra falar de mim antes que as memórias sumissem e eu não pudesse registrá-las mais, ou seria o contrário, vai saber, e se serve de explicação final, novamente o poema do William Ernest Henley que virou um preferido e carrego sempre comigo desde que conheci ele, foi realmente um achado e vou encher o saco alheio com ele por muito tempo ainda. O autor nunca passou de mediano, mas teve seus quinze minutos de fama por total merecimento. Quando soube que ele foi bastante doente, sempre pendendo entre lá e cá e mesmo assim ignorou inspirações divinas e ainda escreveu isso&#8230; impressiona. Eu nunca vou me esquecer de Invictus precisamente por isso.</p>
<p>Quem quer, faz. Quem quer, fala. Quem quer, é. Porra.<br />
<img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2010/04/invictus.jpg" alt="Invictus, William Ernest Henley" /></p>
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		<title>my life according to nofx</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Dec 2009 18:07:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>caio1982</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Pra servir de aquecimento a volta do NOFX ao Brasil  no começo de 2010 eu participei de uma brincadeira &#8211; de responder perguntas com nomes de músicas de uma determinada banda &#8211; via Facebook que o Nivaldo, Felipe, Juliano e cia. ltda. começaram. Botei abaixo por motivos históricos. Como ninguém tem obrigação de conhecer [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pra servir de aquecimento a <a href="http://twitter.com/caio1982/status/6472566882">volta do NOFX ao Brasil</a>  no começo de 2010 <a href="http://www.facebook.com/notes/caio-begotti/my-life-according-to-nofx/226537628010">eu participei de uma brincadeira &#8211; de responder perguntas com nomes de músicas de uma determinada banda &#8211; via Facebook</a> que o <a href="http://www.facebook.com/note.php?note_id=222804338611">Nivaldo</a>, <a href="http://www.facebook.com/note.php?note_id=226577461127">Felipe</a>, <a href="http://www.facebook.com/note.php?note_id=237541128976">Juliano</a> e cia. ltda. começaram. Botei abaixo por motivos históricos. Como ninguém tem obrigação de conhecer NOFX linkei as músicas pra quem quiser poder ouvir e tal. É meio meme, mas fiquei satisfeito com a <a href="http://www.nofxofficialwebsite.com/tour/tour.php3">nouefékszada antes do show </a>deles :-)</p>
<p><strong>Pick your Artist:</strong><br />
<a href="http://en.wikipedia.org/wiki/NOFX">NOFX</a></p>
<p><strong>Are you a male or female:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64506178/5624154c/NOFX-_Punk_Guy.html">Punk Guy</a></p>
<p><strong>Describe yourself:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/102569859/fc3c93ba/10_Dads_Bad_News.html">Dad&#8217;s Bad News</a></p>
<p><strong>How do you feel:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/176039831/c21a8fc7/NOFX-_I_Gotta_Pee.html">I Gotta Pee</a></p>
<p><strong>Describe where you currently live:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64663803/bf6c16b0/NOFX-_Anarchy_Camp.html">Anarchy Camp</a></p>
<p><strong>If you could go anywhere, where would you go?</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/102569434/ddcdb1e5/09_Les_Champs_Elyses.html">Champs Elysées</a></p>
<p><strong>Your favorite form of transportation:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64458138/d12bfbae/NOFX-_SM_Airlines.html">S&#038;M Airlines</a></p>
<p><strong>Your best friend?</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64496236/11faf2c2/NOFX-_Liza_And_Louise.html">Liza &#038; Louise</a></p>
<p><strong>You and your best friend are:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/102567527/bcc2cc1a/02_Kids_of_the_K-Hole.html">Kids Of The K-Hole</a></p>
<p><strong>What&#8217;s the weather like:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64492520/6bafe764/NOFX-_Showerdays.html">Showerdays</a></p>
<p><strong>Favorite time of day:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64771675/4fe53ad6/NOFX-_60_Percent.html">60%</a></p>
<p><strong>If your life was a TV show what would it be called?</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64606284/5cd8895f/NOFX-_And_Now_For_Something_Co.html">And Now For Something Completely Similar</a></p>
<p><strong>What is life to you:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64497072/c9c340d4/NOFX-_Soul_Doubt.html">Soul Doubt</a></p>
<p><strong>Your relationship:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64521781/4bfaa64c/NOFX-_The_Desperations_Gone.html">The Desperation&#8217;s Gone</a></p>
<p><strong>Your fear:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64652671/eba1d1e4/NOFX-_Electricity.html">Electricity</a></p>
<p><strong>What is the best advice you have to give:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64377820/f69c0adc/NOFX-_Live_Your_Life.html">Live Your Life</a></p>
<p><strong>Thought for the Day:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/20589184/c01c34d6/NOFX_-_We_Threw_Gasoline_on_th.html">We Threw Gasoline On The Fire And Now We Have Stumps for Legs and No Eyebrow</a></p>
<p><strong>My motto:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64771281/c8194adc/NOFX-_Youre_Wrong.html">You&#8217;re Wrong</a></p>
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		<title>sugestões de leitura</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Dec 2009 14:04:52 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Eu não costumo fazer listas de coisas e ficar sugerindo para os outros como se fosse guia espiritual, mas esse ano o meu ritmo de leitura foi tão bom que eu havia começado a escrever umas linhas sobre cada uma. Como não tenho mais nada pra ler até a virada do ano, peguei o que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu não costumo fazer listas de coisas e ficar sugerindo para os outros como se fosse guia espiritual, mas esse ano o meu ritmo de leitura foi tão bom que eu havia começado a escrever umas linhas sobre cada uma. Como não tenho mais nada pra ler até a virada do ano, peguei o que li esse ano e botei abaixo com o motivo pra eu ter lido cada uma das coisas e uma singelinha recomendação. Eu tinha quase desistido dessa idéia, mas aí o <a href="http://www.felipearruda.com/blog/">Felipe</a> falou que tava pra fazer a mesma coisa e mudei de idéia.</p>
<p><a href="http://www.librarything.com/profile/caio1982">Na minha página do Library Thing</a> &#8211; bendito e excelente serviço online (um dos poucos com utilidade bem alta hoje em dia) &#8211; tem tudo o que eu já li, mas resolvi listar só os desse ano porque <a href="http://caio.ueberalles.net/log/2009/01/25/letras-linguistica-ingles/">fiz muitas matérias pouco técnicas na UFPR</a>, li muita coisa variada nos períodos de férias dela e tirei minhas melhores médias de literatura; feito impressionante porque são as disciplinas mais chatas.</p>
<p>Tudo isso seria irrelevante se eu não tivesse gostado da maioria dos livros, por isso eu fiz isso aqui:</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/alice.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/8288">Alice&#8217;s Adventures in Wonderland</a></strong> (Lewis Carroll): um clássico, li de forma espaçada nas idas ao banheiro após almoços (um capítulo curto por dia). A leitura às vezes travava, eu não esperava tantos trocadilhos e jogos linguísticos e por ser tudo em inglês deu um certo trabalho mas foi agradável como preparação pra adaptação cinematográfica do Tim Burton que sai logo mais. Recomendo (o original em inglês) por ser um clássico infantil que muitos não conhecem de ler mas só de ouvir falarem.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/amadeus.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/36791">Amadeus</a></strong> (Peter Shaffer): surpresa e surpresa, é isso que Amadeus foi pra mim. Eu já sabia que existia o filme mas não conhecia a história, e ela é simplesmente incrível. A trama é acompanhar a vida do Mozart enquanto um outro músico da época é o narrador frustrado, com pitadas de humor bizarro e muita música. Eu primeiro li o roteiro da peça e depois vi o filme e <a href="http://www.flixster.com/movie/amadeus">diria que virou um dos top dez de filmes de temática musical pra mim</a>. A história do livro é um pouco diferente do filme, no livro o protagonista não é o Amadeus e sim o Salieri e no filme não é nenhum dos dois; chegamos no acordo, durante uma aula na UFPR, que o protagonista do filme é a música do Mozart em si e o autor parece concordar com isso. <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Amadeus_(film)">Recomendadíssimo se você topar inclusive assistir o filme</a>.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/blindness.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/3773276">Ensaio Sobre a Cegueira</a></strong> (José Saramago): virou clássico e era sempre recomendado por amigos como um bom livro de um baita escritor. Eu e a Danielle devoramos ele, adoramos e acredito que a história de uma epidemia de cegueira branca seja conhecida suficiente pra economizar descrições. Eu achei o final simplesmente bom: elegante, tranquilo e sem enrolações complicadas. O filme entrega diversos spoilers mas se serve como incentivo pra ler o livro a escrita do Saramago é estranha, muito, mas flui num ritmo impressionante; na página 10 você já se acostumou e não para de ler. Recomendo pela experiência de leitura.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/imp.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/3959486">The Bottle Imp</a></strong> (Robert Louis Stevenson): leitura quase boba pra uma apresentação em inglês na UFPR, The Bottle Imp é sobre uma fábula, ou lenda, ou conto sobre pactos com o demônio no Havaí e Taiti. A história, parte das <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Island_Nights'_Entertainments">Island Nights&#8217; Entertainments</a>, é bem legal na verdade&#8230; tem conceitos morais interessantes e é linguisticamente bem rica, com vocabulário da polinésia francesa e havaiano. Recomendo pelo tema e pelo contexto da história que não são muito comuns de ser ler mais.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/hurin.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/1907912">The Children of Húrin</a></strong> (J. R. R. Tolkien): vai ser de longe a minha recomendação de leitura mais enviesada, com certeza. O livro detalha lindamente a sina dos filhos de Húrin, fala sobre humanos amaldiçoados nos livros do Tolkien. A história é uma das melhores do Tolkien e não sei se a tradução é boa no lançamento nacional mas é sem dúvida um dos melhores livros de fantasia e ficção que já li. É desgraça atrás de desgraça, você fica até depressivo de tantas coisas ruins que acontecem com os filhos do Húrin. Não tem como comentar a história sem dar spoilers. Recomendo pela história foda, ilustrações bonitas, linguagem alto nível e por ser fantasia de qualidade.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/salesman.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/4865">Death of a Salesman</a></strong> (Arthur Miller): foi a minha leitura inicial no mundo do cara que criou <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/As_Bruxas_de_Salem">As Bruxas de Salem</a>. Death of a Salesman me emocionou bastante, pela primeira vez alguém misturou fluxo de consciência com múltiplos tempos de narração no teatro. O personagem principal Willy Loman é um pai &#8220;fracassado&#8221; com filhos perdedores e que mostra o que o Miller acha do tal sonho americano: nunca existiu e se existiu é algo apodrecido. <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Death_of_a_Salesman_(1985_film)">O filme feito pra televisão com o Dustin Hoffman faz qualquer um que teve pai lacrimejar um pouco</a>. Recomendo pelo contexto histórico e cultural dos EUA.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/doisirmaos.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/171564">Dois Irmãos</a></strong> (Milton Hatoum): foi uma recomendação de amigos da faculdade e do <a href="http://www.logorreia.com.br/">meu fiel revisor e sempre prestativo amigo literário</a>. Depois de ler Dois Irmãos eu <a href="http://www.livrariascuritiba.com.br/?system=agendacultural&#038;cidade=curitiba&#038;mes=6&#038;ano=2009">fui até num evento das Livrarias Curitiba onde o Hatoum ia dar entrevista e autografar livros</a>, pra conhecê-lo um pouco. A história é bonita e fácil de se identificar em linhas gerais, fala de gêmeos que moram em Manaus e conta a vida deles até os últimos dias da maioria dos personagens; basicamente trata das richas entre irmãos. Recomendo por ser boa literatura atual e ambientação nacional.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/snakes.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/6291124">Don&#8217;t Sleep, There Are Snakes: Life and Language in the Amazonian Jungle</a></strong> (Daniel Everett): foi um dos poucos livros de linguística (e mesmo assim nem tanto) que li esse ano. O Everett é <a href="http://www.google.com/search?q=chomsky+everett+pirahã">o mesmo cara que citam quando vão falar dos índios pirahãs e os problemas linguísticos deles que o prepotente do Chomsky ignora</a>, no livro ele narra os quase 30 anos que viveu na Amazônia com eles e conta dia-a-dia, curiosidades, cultura e conflitos que encontrou. O ponto alto do livro é quando ele conta como deixou de ser missionário evangélico na selva pra ser ateu e toda sua família o abandonou. Recomendo se gosta de cultura indígena e linguística.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/doubt.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/129929">Doubt: A Parable</a></strong> (John Patrick Shanley): é &#8220;<a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Doubt_(2008_film)#Awards">o livro que deu origem ao filme</a>&#8221; no jargão do SBT, e gostei pela simplicidade extrema. Eu nunca vi a peça mas diz a lenda que a montagem feita no Brasil não ficou boa, e pra ser sincero eu esperava mais do filme com o Philip Seymour-Hoffman e Meryl Streep. A história gira em torno de dúvidas bem humanas que temos, só isso, mas num ambiente de padres e freiras com suspeitas entre eles, pega pra capar. O roteiro da peça é mais misterioso que o filme, é impossível você tomar qualquer tipo de partido. Recomendo por ser algo contemporâneo e curtinho, cinquenta páginas.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/jekyllhyde.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/12349">The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde</a></strong> (Robert Louis Stevenson): é uma história bem mamão-com-açúcar que de assustadora ou emocionante eu não achei nada. Do Stevenson eu preferi The Bottle Imp mesmo, apesar desse ser mais clássico e conhecido. Recomendo só se estiver interessado em conhecer um clássico qualquer.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/familia.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/548587">Laços de Família</a></strong> (Clarice Lispector): foi a única leitura da Clarice Lispector que realmente gostei e mesmo assim foi enigmática demais em alguns momentos. São contos geralmente curtos sobre o cotidiano mas com uma tendência forte pra visões femininas, normal da Lispector. Recomendo só se quiser ler algo da Lispector por curiosidade.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/formacao.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/253914">Formação Econômica do Brasil</a></strong> (Celso Furtado): é um livro que eu sempre recomendo quando posso, pra conhecidos que gostam de leituras de fundo socio-econômico. O <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Celso_Furtado">Celso Furtado é um dos mestres pra ler no curso de Economia</a> da Danielle, e apesar de existir muita crítica moderna a pesquisa que ele fez no livro o texto permanece excelente apesar do tempo. Ele explora a formação econômica desde as capitanias até antes do golpe militar, período do JK mais ou menos. Recomendo por ser abrangente, sério e leitura fácil.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/menagerie.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/34387">The Glass Menagerie</a></strong> (Tennessee Williams): é um roteirinho sem muito sal que acabou virando filme preto-e-branco décadas atrás e que é até interessante mas nada muito espetacular. A história é sobre conflitos dentro de uma família problemática meio que durante o período de recessão norte-americana; a mãe maluca, a filha retraída, o filho rebelde e o pai ausente. Recomendo só se puder ver o<a href="http://www.youtube.com/watch?v=SumagAF4nU8"> filme na versão com o Sam &#8220;Jack Law &#038; Order McCoy&#8221; Waterston</a>.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/sertao.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/3991463">Grande Sertão: Veredas</a></strong> (Guimarães Rosa): é daqueles livros que todo mundo fala bem, a maioria não lê e você evita por falta de vontade, mas que foi <a href="http://caio.ueberalles.net/log/2009/10/16/oficializacao/">uma das maiores revelações pra mim</a> em todos esses anos alfabetizado. Fiz uma leitura mais lenta, crítica e estudando cada trecho numa disciplina da UFPR, então admito ter tido mais facilidades pra ler. Sertão de Goiás, partezinha da Bahia, Tocantins e afins. Muitas mortes, conflitos internos e surpresas. Genialidade em como brinca com palavras. Recomendo por hoje considerar uma das maiores obras em português que existe.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/hamlet.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/2199">Hamlet</a></strong> (William Shakespeare): eu acho que só rendeu bem porque li uma engraçadíssima e bem feita tradução do Millôr Fernandes, emprestada do Felipe. História de algo podre no reino da Dinamarca, clássica. Lia enquanto esperava aulas na UFPR, nos corredores, então a leitura &#8211; por causa da boa tradução &#8211; rende bem. Recomendo pela tradução e pelo classicismo da história.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/sempressa.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/9294107">Histórias Para Ler Sem Pressa</a></strong> (Mamede Mustafa Jarouche): é o tipo de leitura perfeita pra banheiro, parque ou enquanto se espera alguma coisa num canto qualquer. São pequenas (e algumas médias) histórias dos séculos IX ao XVIII, algumas não passando de meia página, sobre vários assuntos com temática árabe pra não dizer muçulmana. São todos textos árabes antigos e traduzidos muito bem pelo Jarouche. Minha preferida é sobre como amedrontar embaixadores pra eles se converterem ao islamismo. Adorei o livro mesmo. Recomendo por ter sido algo exótico (pra mim) e um resgate de textos antigos.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/boys.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/2980228">The History Boys</a></strong> (Alan Bennett): é bom pra quem é culturamente foda e percebe e entende referências em textos com facilidade. Não é o meu caso, detesto pedantismo em livros. A história de um grupo de garotos ingleses tentando entrar na faculdade e passando pela adolescência tem tantas referências de arte, literatura, música e filme que irrita. Irrita muito. A maioria delas são referências gays do autor, o que é compreensível porém cansativo. Recomendo só se tiver tempo livre e saco pro humor escrito britânico.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/estrela.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/221304">A Hora da Estrela</a></strong> (Clarice Lispector): é, junto talvez quem sabe por que não de Laços de Família, algo minimamente interessante da Lispector. Uma história fofinha sobre uma coitada que só se fode mas sempre segue em frente. Leitura curta e rápida que li no começo do ano, coisa pra se ler em fim de semana com tempo sem nada o que fazer. Recomendo só se gostar da Lispector, não vi muito mérito na leitura apesar de fofinha.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/ontheroad.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/3207">On The Road</a></strong> (Jack Kerouac): meio que foi febre entre amigos meus, mas pra mim foi mesmo uma excelente leitura e experiência bem temporária de porra-louquice. Quando vi <a href="http://www.nypl.org/press/2007/Beatific_exhibition.cfm">a exposição do On The Road</a> nas <a href="http://caio.ueberalles.net/log/2008/03/09/recordacoes-manhattianas/">férias de 2008</a> eu fiquei bem animado pra ler o livro, ver o original e desenhos da viajem do Kerouac através dos EUA nos anos 50 me deixou empolgado por um tempo. Recomendo por ser um marco cultural e de literatura de viagens.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/othello.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/10264">Otelo</a></strong> (William Shakespeare): é outro clássico eterno que todos falam mas que não me animou tanto quanto eu pensei que faria. Me irritou bastante o fato de confundirem &#8220;negro&#8221; com &#8220;mouro&#8221; em análises que li do livro que fala de intrigas de palácio. <a href="http://www.utp.br/eletras/texto/RS_artigo_18.7_Celia_Arns_de_Miranda_Shakespeare_em_versao_musical.pdf">A melhor adaptação que eu vi</a> é brasileira inclusive: Otelo da Mangueira, anote o nome. Recomendo ler porque é Shakespeare e porque o Iago é um dos maiores vilões que já criaram.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/gh.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/500449">A Paixão Segundo G.H.</a></strong> (Clarice Lispector): é o vômito do bêbado no fim da festa. Fãs da Lispector podem se revirar, mas o livro é escrito o que as fotos dela são visualmente: frescura e pose. Tentei ao máximo até estudar de forma séria o livro noutra disciplina da UFPR, mas não dá. É horrível, sem propósito, nem mesmo uma experiênciazinha estética minimamente interessante. Nada. É engraçado que todos se lembram desse livro pela protagonista comer uma barata&#8230; grande coisa. Recomendo só sob tortura.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/preconceito.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/7120064">Preconceito Linguístico: O Que é, Como Se Faz</a></strong> (Marcos Bagno): apareceu como uma leitura atrasada. Eu deveria ter lido ele antes até mesmo por estudar linguística, mas só deu esse ano. Não tem como discordar muito do Bagno, ele sintetiza tudo que é preciso resolver a respeito do assunto, muitas vezes até sem se estender muito. Recomendo como uma leitura de curiosidade, pouco técnica mas relevante.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/estorias.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/4022143">Primeiras Estórias</a></strong> (Guimarães Rosa): foi uma espécie de preparação pra eu ler o GS:V, não li todas as histórias mas a maioria. A edição que tenho foi meio que dada e tem desenhos que ilustram cada uma das histórias, bem bonitos. Assuntos variados, não tem como resumir nada direito. Recomendo se quiser ler algo antes de GS:V ou como complemento posterior ao Guimarães Rosa.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/romeujulieta.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/2225">Romeu e Julieta</a></strong> (William Shakespeare): foi junto com Titus Andronicus e Otelo a leitura de uma disciplina sobre Shakespeare na UFPR esse ano, mas não gostei das traduções bem intencionadas porém infiéis da Barbara Heliodora. A história todo mundo conhece, então sugiro ler estudando o que Shakespeare queria dizer em vários trechos, tem bastante fatos sociais e culturais da época e quebra de tabus. Recomendo se não tiver o preconceito que eu tive com <a href="http://www.flixster.com/movie/william-shakespeares-romeo-juliet1996">o filme Romeo + Juliet</a>, vale a pena assistí-lo depois de ler porque a adaptação é muito boa mesmo.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/streetcar.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/21544">A Streetcar Named Desire</a></strong> (Tennessee Williams): foi melhor que The Glass Menagerie do próprio Tennessee Williams, mas não gostei tanto assim também. A história é boa até, vida simples em New Orleans enquanto o mundo vai mudando, alcoolismo, brigas em família e ilusões. A versão em <a href="http://images.google.com/images?q=streetcar+named+desire">filme com o Marlon Brando é boa como falam, mas nem tanto assim</a> IMHO. Recomendo se gostar de frases de impacto clássicas pra citar pros amigos.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/megera.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/4941">A Megera Domada</a></strong> (William Shakespeare): me surpreendeu pelo fator WTF. Talvez tenha sido pelo mesmo fato que o Felipe achou estranho o livro, <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Cravo_e_a_Rosa">eu também ficava imaginando o Petruchio e a Catarina da novela da Globo</a> enquanto eu lia. A história é legal &#8211; como na novela &#8211; bastante comédia e às vezes até um pouco ácida. Rola romance, birras e tal. Recomendo pela tradução e tom de comédia bom de ler enquanto espera pra fazer outra coisa.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/zoostory.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/611025">The Zoo Story</a></strong> (Edward Albee): é uma peça bastante curta sobre a impossibilidade de comunicação entre pessoas e situações limite com choque entre universos pessoais. Não sei examente o que dizer dela além disso e que é uma peça interessante do Teatro do Absurdo. Recomendo <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Theatre_of_the_Absurd">se quiser ler algo de Teatro do Absurdo</a>, não é o tipo de texto ou atuação no teatro que me empolga.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/titus.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/15307">Titus Andronicus</a></strong> (William Shakespeare): foi possivelmente a minha maior empolgação com Shakespeare até hoje, pelo constraste dessa história sanguinolenta e violenta em relação a outras dele e pelas referências clássicas do texto que me levou a dar uma estudada leve em como Titus Andronicus é uma atualização da <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Oresteia">Oréstia do Ésquilo</a> pra Inglaterra renascentista, <a href="http://twitter.com/caio1982/status/5708910069">como andei falando no Twitter</a>. História de vingança, justiça, assassinatos, &#8220;gore&#8221; total. Recomendo por ser algo muito diferente do Shakespeare convencional e se já leu a Oréstia.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/vendetta.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/7114">V de Vingança</a></strong> (Alan Moore): acabei só lendo no fim desse ano depois de ter visto o filme e &#8211; oh, novidade! &#8211; achei a história em quadrinhos realmente mais legal que o filme. Revi o filme logo em seguida pra ter certeza e os diálogos dos HQs são melhores e tem mais coisa na história, que no cinema acabou ficando ou curta demais ou sem muitas costuras ou ambas as coisas. Futuro sombrio, distopia, terrorismo do bem. Recomendo pra abrir a mente e relaxar com quadrinhos bem feitos.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/godot.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/2156">Waiting for Godot</a></strong> (Samuel Beckett): é uma outra peça estranha, como The Zoo Story foi. Se quiser lê-la eu recomendo fortemente procurar algo sobre Teatro do Absurdo antes ou irá se frustrar por não entender o propósito quase psicodélico da história. Pense numa situação entre pessoas que entra em loop infinito. É um clássico do Beckett e precisei me esforçar bastante pra ter interesse no livro. Recomendo pra poder dizer que já leu algo do Teatro do Absurdo de verdade.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/flames.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/4950082">When You Are Engulfed In Flames</a></strong> (David Sedaris): foi o que fez eu passar a gostar do <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/David_Sedaris">Sedaris</a> de verdade. <a href="http://www.newyorker.com/magazine/bios/david_sedaris/search?contributorName=david%20sedaris">Eu já havia lido online textos dele</a> e coisas enviadas por colegas que já o conheciam, mas When You Are Engulfed In Flames (além de ter uma capa massa) é excelente como texto de cotidiano e vida medíocre, pra não dizer banal também. São diversas histórias: curtas, médias e longas sobre tudo quanto é assunto do dia-a-dia do cara. Recomendo por ser uma leitura em inglês fácil e divertida.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/wit.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/2271">Wit: A Play</a></strong> (Margaret Edson): é de uma suavidade porém tão forte que não sei descrever; é &#8220;<a href="http://dictionary.reference.com/browse/wit">wit</a>&#8221; no sentido mais puro da palavra e tem que ler pra entender. Resumindo, uma acadêmica das mais conceituadas e nerd assumida tem duas horas de vida em um hospital e a gente vai vendo ela definhando enquanto sua mente vai desaparecendo. Parte da graça da história vem da protagonista conversar com o leitor. História bastante triste, bonita e bem humanizadora. Se puder, <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Wit_(film)">veja o filme com a Emma Thompson</a>&#8230; é de chorar, juro. Recomendo por mostrar condições humanas quase universais.</p>
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		<title>rant sobre microblogging</title>
		<link>http://caio.ueberalles.net/log/2009/10/26/rant-sobre-microblogging/</link>
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		<pubDate>Mon, 26 Oct 2009 23:49:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>caio1982</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Alguns amigos meus já não aguentam mais me ouvir falar mal do Twitter, mesmo assim resolvi fazer um rant sobre microblogging pensando basicamente nele. Antes de começar a usar o Twitter eu já falava mal dele, mas então comecei a usar por causa de features específicas e até pelo menos 5 minutos atrás eu não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Alguns amigos meus já não aguentam mais me ouvir falar mal do Twitter, mesmo assim resolvi fazer um rant sobre microblogging pensando basicamente nele. Antes de começar a usar o Twitter eu já falava mal dele, mas então comecei a usar por causa de features específicas e até pelo menos 5 minutos atrás eu não conseguia falar bem do serviço deles por muito tempo. Isso chega a ser engraçado pra alguém com tempo de sobra pra escrever tudo isso, deve significar que gosto mais do Twitter do que realmente admito. Enfim, resolvi listar problemas e idéias que na minha opinião são relevantes. Ato popularmente conhecido como chorar pitangas :-)</p>
<p>Já me ouviu falar do Twitter antes? Se sim, não tem nada aqui que seja realmente novidade&#8230;</p>
<h2>1. Reply de twits</h2>
<p>Se você já mencionou <a href="http://twitter.com/caio1982">@caio1982</a> alguma vez em um twit seu e estranhou eu não fazer nenhum comentário a respeito, ou pior, recebeu uma direct message ou e-mail meu com assunto &#8220;re: twitter&#8221; não leve pro lado pessoal. Eu não faço replies para twits. Nunca. E não farei até que reply de mensagem seja tratado como metadado de verdade. É estúpido: se você não clicar em reply e não botar o @foobar no começo do twit o sistema ignora isso às vezes, não é algo consistente (nem para replies nem para retwits), não fiz testes pra ver como é mesmo mas acontece de darem reply pra uma mensagem e quando você vai ver é um twit já antigo na timeline. Duh!</p>
<p>Se você se propõe a criar timelines, o mínimo que se espera é que você consiga manter um encadeamento dos itens (twits) de forma consistente e sem adicionar peso nas costas do usuário, como quando antigamente era preciso ser rápido e responder um twit na hora, caso contrário você iria responder sobre flores e seu amigo já havia postado algo novo sobre esterco de vaca. Foi isso inclusive que matou o <a href="http://www.quotably.com/">Quotably.com</a>, uma pena.</p>
<p>Não importa o que você digita, se foi via botão de reply deveria ser tratado como tal e de forma transparente. A desculpa que isso é compatibilidade com SMS não cola, quase ninguém usa SMS no Twitter hoje em dia (foi só a centelha e chamativo no começo), quem usa Twitter no celular já usa um aplicativo específico para isso. Além disso o Twitter quase não suporta SMS, se você não está em país foda você é ignorado.</p>
<p>Outro ponto que me parece estúpido no funcionamento de replies em twits é quando você estranha determinada pessoa por não ver twits dela já faz algum tempo, aí você decide abrir o perfil dela manualmente e percebe que ela tem sim postado bastante coisa&#8230; mas falando com outras pessoas e você não ficou sabendo. Mas como assim, doutor? Por algum motivo sem sentido o Twitter parou de exibir todos os twits, mesmo replies para terceiros, e agora só mostra replies de seus following se você estiver seguindo a pessoa a quem seu following deu reply. É nonsense total, uma rede social não deveria se limitar a comunicação um-para-um&#8230; é (quer dizer, era) útil ver pessoas novas apra seguir em conversas não iniciadas por você.</p>
<h2>2. Metadados não deveriam ser contados</h2>
<p>Eu acho bacana e charmosinho manter o limite de caracteres em 140 no Twitter, acho legal. Infelizmente isso atrapalha quando a ferramenta cresce absurdamente e começam a entupir twits com tags #foobar #thereitis #myarse. Pense num twit que já é uma frase meio longa, com várias tags e que alguém resolva fazer retwit. Lá se vão mais caracteres no lixo pelo RT: antes da mensagem. Quando você percebe já não tem espaço pra mais nada. Seus 140 caracteres foram pro espaço.</p>
<p>Uma solução pra isso seria não contabilizar metadados (hoje consolidados) como RT: ou #tags e fazer com que eles até fossem contabilizados, mas separadamente do texto do twit. Você teria 140 caracteres pro twit e outros 140 pra metadados &#8211; chutando o balde na quantidade de metadados e isso se quiser usá-los, é claro. Um mockup rápido que fiz talvez ajude a entender a contagem individual de cada um como imaginei na minha cabeça:</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/10/caio1982-metadata-mockup.png" alt="Mockup de metadados no Twitter" width="794" height="308" /></p>
<p>Além disso, não dá pra saber como o Twitter irá implementar suporte a RT: ainda, mas pelos screenshots parece que será tudo ou nada, clicou em retwit já era, não poderá editar ou acrescentar nada ao twit original; o que quebra o uso que a maioria das pessoas dá a feature. É algo que deveria ser modificado antes de ir pra produção também, IMHO.</p>
<h2>3. Namespace privado</h2>
<p>Demorou para o time do Twitter adicionar suporte a namespaces pra empresas, governos ou instituições além de uma pessoa comum. Na verdade até seria legal qualquer usuário comum ter um namespace próprio, meio que na mesma idéia de namespaces em páginas wiki. Vivem dizendo e reclamando que o Twitter não possui meios de ganhar dinheiro, eu acho que namespaces poderiam ser vendidos pelo Twitter assim como domínios de site são. Eu, por exemplo, poderia pagar pelo namespace &#8220;begotti&#8221; e pessoas da minha família que usam Twitter poderiam ter perfis como:</p>
<p><a href="http://twitter.com/begotti/pai">http://twitter.com/begotti/pai</a><br />
<a href="http://twitter.com/begotti/pedro">http://twitter.com/begotti/pedro</a></p>
<p>De quebra você poderia ter uma página de namespace custom, quase como de um perfil normal, mas não tão dinâmica. Assim você teria grupos ou aglomerados &#8220;oficiais&#8221; (palavrinha que ajuda na idéia de vender namespace para instituições, também). Eu não aguento mais ver perfis da NASA, cada um tem um nome diferente começando com <a href="http://twitter.com/NASA_Wallops">NASA mais um underscore</a> ou então <a href="http://twitter.com/Astro_Ron">Astro mais underscore e então o nome do astronauta</a>. Isso é feio. É idiota. Poderiam, no lugar disso, ter algo como:</p>
<p><a href="http://twitter.com/nasa/news">http://twitter.com/nasa/news</a><br />
<a href="http://twitter.com/nasa/kelly">http://twitter.com/nasa/kelly</a><br />
<a href="http://twitter.com/nasa/ron">http://twitter.com/nasa/ron</a><br />
<a href="http://twitter.com/nasa/astronauts">http://twitter.com/nasa/astronauts</a></p>
<p>Empresas grandes (como a <a href="http://twitter.com/digium">Digium</a>, virtual dona do <a href="http://www.asterisk.org">Asterisk.org</a>) poderiam ter seus namespaces também agrupando perfis do Twitter de seus departamentos etc. Algo assim:</p>
<p><a href="http://twitter.com/digium/sales">http://twitter.com/digium/sales</a><br />
<a href="http://twitter.com/digium/switchvox">http://twitter.com/digium/switchvox</a><br />
<a href="http://twitter.com/digium/events">http://twitter.com/digium/events</a><br />
<a href="http://twitter.com/digium/press">http://twitter.com/digium/press</a></p>
<p>Fato: se você criar uma forma das pessoas se sentirem especiais no meio de um mar de usuários, alguns irão topar pagar por isso. Acho que vale o esforço e agregaria algum valor que hoje é desperdiçado. Hoje já fazem checagem de perfis de celebridades e políticos, fazer isso para instituições ou usuários querendo namespaces não seria mais complicado do que já é hoje. Namespaces seriam uma forma de você ter um ID único mesmo ele já tendo sigo pego por alguém antes. Claro, corre-se o risco de criar algo &#8220;bom demais&#8221; para algo que nem mesmo é visto como problema pela maioria dos usuários.</p>
<h2>4. Contas pagas com diferenciais</h2>
<p>Outra forma do Twitter gerar algum dinheiro seria dar mais liberdade criativa para contas pagas. Por exemplo: não faz o menor sentido eu entrar no perfil da Amazon e ver aqueles quadrados de following e followers deles&#8230; quem se importa com essas pessoas? Role a página e verá o espaço desperdiçado ali. Se perguntar pra Amazon o que eles achariam de usar esse espaço pra botar boxes de produtos e coisas deles ao invés de boxes de usuários, acho que já sabemos a resposta. Pense nessa idéia para empresas como a <a href="http://www.engadget.com/2009/09/14/apple-itunes-lp-format-gets-dissected-explained/">Apple pensou no iTunes LP para selos e gravadoras</a>. Imagine o que o <a href="http://twitter.com/novo_submarino/">Submarino</a>, <a href="http://twitter.com/AMERICANASCOM">Americanas.com</a> ou mesmo <a href="http://twitter.com/passagensaereas">o Twitter do Passagens Aéreas</a> poderiam fazer com isso.</p>
<p>Eu adoraria dizer também que poderiam cobrar para se ter contas de conteúdo privado, mas vou me limitar a reclamar de filhos da puta covardes e medrosos que acabam com toda a idéia de conteúdo online: se você não quer nada seu na internet, então se tranque no quarto sem energia elétrica, cacete. Imagine se todo mundo protegesse seu perfil para somente followers poderem ver seus twits, o Twitter seria uma rede social ultra secreta onde nada é legível e você quase não tem conexões. Não chegaria ao ponto disso não ser possível mais, apenas precisariam pagar pela suposta (e sempre fraca) privacidade.</p>
<h2>5. Anúncios com sharing entre usuários</h2>
<p>Eu detesto anúncios e costumo chamar de mendigos virtuais pessoas que entulham seus sites pessoais com coisas do Google só para ganhar alguns centavos por clique. É irritante e costuma (no meu caso) manchar a imagem do lugar que estou visitando. Porém, no Twitter poderia existir uma espécie de &#8220;anúncio do bem&#8221; ou &#8220;ads justos&#8221; segundo minha mente doentia. O principal ponto da idéia é: compartilhar o rendimento dos anúncios com os donos dos perfis ou namespaces. Segundo ponto: anúncios padronizados e não intrusivos no layout do Twitter,  com pouca margem pra abuso visual. Terceiro ponto: os anúncios podem ser desligados caso você não queira ganhar algum dinheiro em parceria com o Twitter ou simplesmente não ache que ads são esteticamentes super ultra hiper pirados. Isso tudo, claro, para usuários web do Twitter&#8230; tratar usuários via aplicativos é outra história (que eu prefiro ignorar).</p>
<p>Uma idéia possível, estilo cabeçalho antes de qualquer coisa na página (o link em azul é horrível, eu sei, mas foi de propósito pra ficar visível no exemplo e eu poder continuar falando sem gritarem &#8220;dê exemplos&#8221;):</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/10/tarifadetaxi-ad-mockup.png" alt="Mockup de Anúncio no Twitter" width="550" height="257" /></p>
<h2>6. Protocolo aberto</h2>
<p>Querendo ou não, o estilo de microblogging que o Twitter criou não vai morrer, logo é algo que não pode, não deve, e mais cedo ou mais tarde não irá ficar na mão de um único site. É muito 1998 ter medo da concorrência e não incentivar a criação de um protocolo aberto e distribuído de microblogging. Se o Twitter não liderar isso, vai comer poeira porque isso é uma questão de tempo para acontecer. O Twitter inclusive poderia, como prova de boa fé, dar um passo inicial aprendendo com o <a href="http://www.dataliberation.org/">Data Liberation Front</a> do Google e lançando um &#8220;Escaping from Twitter&#8221; no molde dos projetos já cobertos pela idéia. Uma vez fiz <a href="http://caio.ueberalles.net/svn/scripts/backup_twitter.sh">um script tosco pra fazer backups dos meus twits</a>, de vez em quando eu rodo ele e guardo tudo para o dia em que houver concorrência de verdade ao Twitter. De novo: é uma questão de tempo, um dia eu ou qualquer outra pessoa sairá de lá por um lugar melhor. Infelizmente não é agora que veremos concorrência de verdade ao Twitter, o <a href="http://identi.ca/">Identi.ca</a> tem que comer muito arroz feijão ainda.</p>
<h2>7. Feed no lugar do antigo tracking bot</h2>
<p>A principal feature do Twitter que me convenceu a usá-lo foi o bot via instant messaging que existiu durante algum tempo. Isso antes da famosa baleia voadora do Twitter virar moda. O bot vivia dando problema e foi o primeiro a ser exterminado da face da terra, IIRC. Se hoje a cada baleia voadora que vejo eu ainda imagino nerds sujos suando pra manter dois servidores caseiros no ar com todo o site, imagina naquela época como era. Uma pena, porque era muito, muito legal pedir tracking de palavras pro bot e ver ele te mandar mensagens sempre que alguém mencionava XYZ em qualquer lugar do mundo. Entendo que deveria ter um peso enorme no serviço deles, deveria ser algo caro, mas acho que dá pra retomar a idéia criando feeds públicos de certos termos que todo mundo procura. É ingênuo achar que eles criavam dois trackings diferentes se eu e mais uma pessoa pediamos &#8220;brasil&#8221;, logo feeds públicos e quase estáticos não seriam um problema, acho.</p>
<h2>8. Trending topics é frágil demais</h2>
<p>Eu não costumo navegar pelas entradas do box trending topics do Twitter, mas vivo dando uma olhada pra ela só pra ver quem está na lista. Não é uma feature que eu uso, mas talvez isso seja devido a forma como ela funciona hoje. Pra mim, os trending topics são uma lista pequena demais. Particularmente pequena quando começa os vários bombing semanais com nomes de artistas e eventos. Brasileiros já provaram ser especialmente idiotas (todavia eficientes) em entupir os trending topics com bobagens como &#8220;artista-famoso tem que voltar pro brasil!&#8221;. Uma idéia seria ter uma página com uns 50 trending topics, só que gerada de tempos em tempos (sei lá, 1 minuto é realtime suficiente nesse caso) e armazenada estaticamente, como os trackings. Quando acontece bombing nos trending topics fica impossível saber o que realmente é trending topic e o que é spam camuflado de &#8220;vamos lá amigos, vamos fazer XYZ virar trending topic&#8221; no melhor estilo corrente de e-mail. Isso não é trending, isso é histeria coletiva.</p>
<h2>9. Encurtadores de URL</h2>
<p>Acho difícil existir outro serviço que tenha ajudado tanto na explosão dos encurtadores de URL quanto o Twitter. Até hoje aparece algum novo querendo ser mais curto ainda ou com nome bonitinho. Eu uso somente o <a href="http://tinyurl.com/">TinyURL</a>, sei lá porquê, só sei que não gosto do Bit.ly e no fundo não gosto de nenhum desses serviços sujando os twits postados online. Vira uma zona, trocentos serviços ao mesmo tempo, você não sabe o que é texto e o que é URL mais, tosco total (tento ao máximo usar custom alias no <a href="http://tinyurl.com/">TinyURL</a> pra aliviar um pouco mas nem sempre é possível).</p>
<p>Um: o serviço pra encurtar a URL tinha que ser configurável ou pelo menos por padrão não encurtar nada que eu digitei. Achei podre uma vez ter colado um link em um twit e apareceu um link pro <a href="http://bit.ly/">Bit.ly</a> sem eu querer. Dois: por que diabos não somem logo com o nome dos serviços nas URLs? Ninguém quer saber o serviço por trás, as pessoas querem saber que XYZ é um link e querem abrir ele, só isso. Poderiam muito bem filtrar no momento do post do twit a string <a href="http://tinyurl.com/yhl3htw">http://tinyurl.com/yhl3htw</a> para virar <a href="http://tinyurl.com/yhl3htw">http://yhl3htw</a> que de quebra ajudaria a diminuir a contagem de 140 caracteres. Eu não acho que URLs sejam metadados e o meu medo desses serviços de URLs falirem e levarem metade dos links do universo pro limbo é coisa pra outro texto, mas uma ajudinha mascarando endereços seria legal.</p>
<h2>10. Listas e favoritos</h2>
<p>Vou juntar duas idéias em uma só: o novo recurso de listas é muito legal mas eu senti falta de poder criar além de uma lista pública ou privada uma lista somente para followers (uma mistura de pública e privada, talvez) e pela primeira vez na minha vida durante essa semana que passou eu vi alguém usando o recurso de twits favoritos do Twitter. Na minha cabeça se isso demorou tanto tempo é porque (por amostragem) poucos usam mesmo, então talvez pudessem permitir marcar um perfil do Twitter como &#8220;hot&#8221; e não marcar twits como favoritos. Twits são muito etéreis pra serem marcados como favoritos, não faz sentido na minha cabeça, pra isso já existem bookmarks. Eu usaria o recurso de marcar algum perfil como &#8220;hot&#8221; no sentido de legal, interessante, sempre com algo que quero ler. Mas marcar um twit como favorito? Nah.</p>
<p>É isso. De volta para a caverna dos nerds reclamões agora :-)</p>
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		<title>oficialização</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Oct 2009 13:36:36 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Ontem à noite fiz o tal pedido pra Dani, finalmente. Não que precisasse, moramos juntos faz algum tempo, namoramos há muitos anos etc e tal. Mas achei que como menina ela iria gostar, só pra oficializar tudo. Sem planos extras além dos que já temos, viver com ela me basta. Eu anotei esse trecho de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem à noite fiz o tal pedido pra <a href="http://twitter.com/danihabkost">Dani</a>, finalmente. Não que precisasse, moramos juntos faz algum tempo, namoramos há muitos anos etc e tal. Mas achei que como menina ela iria gostar, só pra oficializar tudo. Sem planos extras além dos que já temos, viver com ela me basta. Eu anotei esse trecho de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_Sert%C3%A3o:_Veredas">GS:V</a> no momento em que li (na altura em que a história está é uma parte muito bonita), pra usar um dia em um momento especial pra nós dois&#8230; mas acabei recitando ele de forma resumida pra ela ontem mesmo:</p>
<p><em>Minha Otacília, fina de recanto, em seu realce de mocidade, mimo de alecrim, a firme presença. Fui eu que primeiro encaminhei a ela os olhos. Molhei mão em mel, regrei minha língua. Aí, falei dos pássaros, que tratavam de seu voar antes do mormaço. [...] Principal que eu via eram as pombas. No bebedouro, pombas bando. E as verdadeiras, altas, cruzando do mato. – “Ah, já passaram mais de vinte verdadeiras&#8230;” – palavras de Otacília, que contava. Essa principiou a nossa conversa. Salvo uns risos e silêncios, a tão. Toda moça é mansa, é branca e delicada. Otacília era a mais.</p>
<p>Mas, na beira da alpendrada, tinha um canteirozinho de jardim, com escolha de poucas flores. Das que sobressaíam, era uma flor branca – que fosse caeté, pensei, e parecia um lírio – alteada e muito perfumosa. E essa flor é figurada, o senhor sabe? Morada em que tem moças, plantam dela em porta da casa-de-fazenda. De propósito plantam, para resposta e pergunta. Eu nem sabia. Indaguei o nome da flor. “Casa-comigo&#8230;” – Otacília baixinho me atendeu.</em></p>
<p>Claro que a Dani ficou com um sorriso de uma orelha até a outra, até hoje de manhã :-)</p>
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		<title>o causo do albergue</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Aug 2009 22:58:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>caio1982</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O causo abaixo estava marcado como rascunho há quase 1 ano, resolvi criar coragem e publicá-lo.
Aquele foi o primeiro albergue em que fiquei na vida, e possivelmente vou me lembrar dele sempre que me hospedar em um outro. Os belgas sabem fazer um lugar simples parecer bonito e ainda ser barato. Depois de algumas horas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>O causo abaixo estava marcado como rascunho há quase 1 ano, resolvi criar coragem e publicá-lo.</em></p>
<p>Aquele foi o primeiro albergue em que fiquei na vida, e possivelmente vou me lembrar dele sempre que me hospedar em um outro. Os belgas sabem fazer um lugar simples parecer bonito e ainda ser barato. Depois de algumas horas de viagem balançando em um trem, eu estava louco pra achar uma cama e descansar. Se possível com uma boa chuveirada antes, daquele tipo quente-arranca-pele, pra tirar a sujeira e me renovar. Eu estava realmente louco por uma, mas ao mesmo tempo minhas pálpebras estavam pesadas demais, pesadas, eu capotava de sono. Pesadas. Eu mal parava em pé. Naquele quarto, naquele albergue bastante simpático, eu iria dividir o espaço com outras três pessoas. Não que eu não tivesse reparado nelas quando cheguei, eu estava cansado demais pra isso e todo mundo entrava e saía com frequência, só fui conhecer os tipos tarde da noite, conforme cada um voltava da sua primeira noitada local.</p>
<p>Logo chegou um tal britânico, um tipo magrelo e branquíssimo, com um pomo-de-adão tão saltado que parecia que ele tinha engolido uma bola de tênis. Não sei se essa é a personalidade mais comum na Inglaterra, mas eu praticamente só ouvi sua voz uma ou duas vezes naquela semana, e ainda assim eram coisas como <em>g&#8217;day</em> ou <em>hello mait</em>. De resto&#8230; ele estava imensamente alegre em te conhecer? Um aceno de sobrancelha bastaria pra ele. Ele estava com infecção urinária e precisava de uma ambulância desesperadamente? <em>Claro</em>, ele devia pensar, <em>um aceno levantando esse meu queixo pontiagudo resolve</em>. Quando me acostumei com o jeito reservado dele e já estava quase dormindo, a porta foi aberta por uma silhueta que me assustou um bocado.</p>
<p>Não é fácil abrir os olhos às duas da manhã e ignorar que um contorno de quase 2 metros de altura, careca e forte como um touro, está carregando uma mochila nos ombros e diz, dirigindo-se a você, um <em>hellou!</em> com sotaque alemão. A mochila era só um pequeno detalhe, ela fazia o papel que uma bolsa da Hello Kitty faria nos ombros de um ciclope ridiculamente alto e musculoso. Aquela careca&#8230; não tinha como não pensar em neonazistas do noticiário, eu puxei a ponta do cobertor até quase o meu nariz e, que ironia, acenei com a sobrancelha no melhor estilo inglês, me borrando inteiro. Se naquela hora ele me falasse que o céu era cor-de-violeta, eu prontamente concordaria. Eu não resisti, fingi estar dormindo só pra ver aquela monstruosidade subir uma escadinha vertical até o segundo andar do beliche de madeira que havia no quarto. Tudo rangia, cada ripa de madeira gritava por sua mamãezinha. Era preciso ter uma certa fé no fabricante daquele beliche pra se dormir em paz no primeiro andar, mas o inglês parecia estar mais interessado em contar suas ovelhas. Foi então que, nessa mesma hora, aquela coisa surgiu.</p>
<p>Não me recordo em que hora exatamente tudo isso aconteceu, mas eu novamente perdi meu sono quando tudo já estava bastante escuro. Aquele escuro silencioso, especial, de quando se acorda de madrugada e a cidade inteira dorme, nada se mexe. Todos já haviam chegado, até o cara que iria dormir na cama ao lado da minha, as únicas individuais, privilégio de quem chega e bota a mochila primeiro sobre o colchão plastificado do albergue. De repente, <em>grrr orrwaah uhurrrrrggghhhh roooonnccc!</em> Se com o alemão a madeira do beliche já havia sofrido demais, com o ronco do cara ao meu lado provavelmente toda a estrutura de metal reforçado do prédio sofreu algum dano naquele momento. Eu tentei ignorar, afinal era só um ronquinho. Todo mundo ronca às vezes. <em>Grrr orrwaah uhurrrrrggghhhh roooonnccc</em> ele fez de novo. Não era só um ronco, havia repetição exata de cada fonema gutural que ele fazia, tinha ritmo. Aposto que era ensaiado.</p>
<p>Eu ficava me virando constantemente, tentando dormir assim mesmo. Certa hora da noite eu abri os olhos mais por instinto do que outra coisa, aquela passada de vista que se faz de vez em quando, bem displicente. Os olhos do tal alemão estavam vidrados em mim, eles brilhavam no escuro iguais olhos de gatos. Aquilo só podia significar duas coisas: ele estava me medindo pra ver se os pedaços cortados do meu corpo caberiam na mochilinha de criança dele ou ele simplesmente também não conseguia dormir com aquela barulheira. Isso tudo logo na primeira noite, só porque eu queria muito dormir em paz.</p>
<p>Algumas vezes de madrugada eu me cobria, virava, tentava abafar o som, mas não dava! Aquilo não parava de <em>grrr orrwaah uhurrrrrggghhhh roooonnccc</em>, e eu só pensava <em>não tenta falar comigo! não fala comigo, porra!</em> Ele já estava na minha cabeça, mal sabia eu que nos dias seguintes eu não conseguiria tirar seu ronco do pensamento. Eu iria ler alguma coisa no trono do banheiro e <em>grrr orrwaah uhurrrrrggghhhh roooonnccc</em>. Eu pedia uma porção de batata frita ao belga simpático que ficava na esquina e ele me respondia <em>grrr orrwaah uhurrrrrggghhhh roooonnccc</em> ao me dar o troco. Eu nunca tinha acordado antes com o ronco de alguém, até aquela semana.</p>
<p>Quando notei, já estava acordando às cinco horas com o sol na minha cara, com os olhos inchados sem dormir direito. Tendo viajado bastante até ali, já estava mais que na hora de tomar um belo banho, afinal. Todos os meus cantos estavam suados. Pessoas dariam a vida naquela hora pra eu ir pro chuveiro e não verem meu suor escorrer já velho. Eu já tinha minha própria pequena mata atlântica, imagine àrvores espaçadas, ambiente húmido e estável. Tempo depois vem uma torrente de água, lenta mas interrompível, escorrendo morro abaixo. As árvores não se molham, elas se lambuzam, é como mergulhar um ipê com tronco e tudo numa bacia de banha de porco. Era assim que as minhas dobras estavam naquela manhã. Eu já havia superado meu problema com os companheiros de quarto, agora estava na hora de resolver a sina dos viajantes: o fedor.</p>
<p>Como muitas pessoas, os meus melhores momentos de relaxamento são no banheiro. Talvez nem todo mundo admita isso em público, mas tente fazer um olhar inquiridor pra alguém na rua, numa fila, como se questionasse ela com <em>você também, fala a verdade!</em> e perceberá isso. Infelizmente não foi o caso no tal banheiro do tal quarto do tal albergue. Ele possuía dispositivos destinados a tortura dos visitantes. Era entrar no box esperando água quente e a porta pesada de vidro vinha lentamente encostar gelada nas suas costas. Você abria ela e ela se fechava novamente.</p>
<p>Isso não seria um problema caso o resto compensasse, mas pra ligar o chuveiro era necessário apertar constantemente um botão quadrado na parede, grande, parecido com um botão de descarga de privada. Cada vez que você soltava aquele botão a água parava de sair. Ok, vamos apertar de novo o tal botão&#8230; mas a maldita água voltava a sair gelada e demorava uns bons segundos até que esquentasse de novo! Imagine um pobre viajante com uma perna esticada, torta, segurando a porta do box que insistia em abrir, e com um braço esticado pressionando o botão do chuveiro o tempo todo.</p>
<p>Tentei de tudo pra criar um sistema que funcionasse, tentei empurrar o botão do chuveiro com o cotovelo e nada. Tentei até segurar o botão pressionado usando um lado da bunda, mas ali sempre sobrava um quadrado do tamanho do botão do chuveiro sem limpar, complicava um pouco a higiene. O botão era baixo demais pra algumas partes do corpo, tentei até usar em vão as minhas costelinhas! Tentei inclusive tomar banho numa perna só, enquanto a outra ficava dobrada pro joelho pressionar o maldito botão.</p>
<p>Bom, aquilo era o melhor que eu podia pagar mesmo. Quem se importaria de passar por uma situação dessas pagando quase nada? Alguém mais apertado financeiramente do que eu deveria achar tudo aquilo o sétimo céu. Quando você procura um chuveiro, desesperadamente, tudo o que você quer é entrar debaixo de um pouco de água quente, a água te faz um carinho e leva a sujeira embora, dá vontade de falar <em>me abraça chuveiro!</em> e não sair dali. Dá vontade de descansar debaixo da água quente por horas. Mas não, os malditos belgas construtores de albergues de tortura não iriam permitir que isso acontecesse. Com os olhos ensaboados eu dava murros na parede ao invés de acertar o botão do chuveiro, de raiva.</p>
<p>Certa vez saí do banho, enfim vencedor, me troquei e resolvi abrir a janela pra arejar um pouco o quarto. Era uma janela enorme, a maior que eu já vi na minha vida inteira. Era quase da altura da minha coxa até o teto, largura de quase uma pequena parede toda. A janela em si era uma tampa enorme de vidro grosso com uma borda fina de madeira, nem sei se dá pra chamar de janela mesmo, era uma peça inteiriça. Quem projetou esse tipo de janela provavelmente precisava passar móveis enormes por ela, aí dá pra imaginar. Simplesmente segui a usabilidade do momento e tentei mexer a trava da janela pra fora. De repente aquilo tudo ruiu e veio caindo pra cima de mim.</p>
<p>Me dei conta, então, que esse era mais um truque dos comediantes belgas: a janela abria ao contrário. A base dela era fixa, presa, ela não abria horizontalmente, abria de cima para baixo, pra que quando chovesse não entrasse água por ali. Se ela abrisse horizontalmente teria infiltração e em algum momento, de tão grande que ela era, alguém não a alcançaria pra fechar. Até meio genial eu diria, mas tudo o que eu conseguia pensar naquela hora era que tinha que segurar aquela tampa gigante de vidro, de qualquer maneira. Entrei num certo pânico ao pensar que o neonazista ou o monstro poderiam não gostar de ver aquilo se esborrachar no chão logo cedo de manhã, mas aprendi a usar a janela. Me senti um desbravador no final das contas.</p>
<p>Relembrando agora&#8230; na verdade o lugar era bastante agradável. Minha dieta se resumia a tomar coca-cola de uma máquina automática e comer batata frita na barraquinha da esquina. Me acostumei com os companheiros de quarto e fiz as pazes com aquele chuveiro temperamental. Tive uma excelente semana e aproveitei bastante, o quanto pude, arrependimento zero. O vento aparecia com frequência, o sol idem. Tudo no albergue era até bem limpo, certamente devo ter exagerado um pouco sobre o quarto. Talvez seja assim porque experiências imediatas são vistas pela gente como se ainda fôssemos crianças: tudo é grande, tudo é pesado, tudo está em alta-exposição e colorido demais. Tenho certeza que daqui alguns anos conseguirei parar de ter pesadelos com aqueles malditos belgas.</p>
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		<title>é sempre tinta preta e flor</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Jul 2009 00:04:47 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Assim que voltamos pra casa após fazermos nossas primeiras tatuagens ano passado, eu e a Dani já começamos a brincar falando sobre pra quando seriam as próximas. Eu tinha uma idéia de fazer algum round knot estilo celta na coxa e a Dani queria porque queria lírios. Eu sosseguei e ela nunca achava um desenho [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Assim que voltamos pra casa após fazermos <a href="http://caio.ueberalles.net/log/2008/09/10/omg-tatuados-e-malvadoes/">nossas primeiras tatuagens ano passado</a>, eu e a Dani já começamos a brincar falando sobre pra quando seriam as próximas. Eu tinha uma idéia de fazer algum <a href="http://images.google.com/images?q=celtic+round+knot">round knot estilo celta</a> na coxa e a Dani queria porque queria lírios. Eu sosseguei e ela nunca achava um desenho bonito pra fazer no ombro&#8230; e foi indo, indo&#8230;</p>
<p>Pra variar, foi só a gente ir pra Praia Grande que ela voltou com o papinho furado de &#8220;ah, faz tempo já&#8221; e resolvemos fazer as novas tatuagens num sábado de chuva forte, não tinha nada melhor pra fazer mesmo :-) escolhi uma árvore celta estilizada que vi uma vez numa pulseira e que lembra um pouco a Yggdrasil <a href="http://twitter.com/caio1982/status/2363902405">que já tava namorando fazia um tempo</a>, a Dani finalmente achou o lírio dela num dos álbuns do estúdio de tatuagem. Aí fizemos, fodeu-se. <a href="http://caio.ueberalles.net/tattoo/">As fotos</a> não estão muito boas e as cores da minha antiga e da nova tatuagem é diferença da idade delas mesmo.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/07/celtic_tree_tattoo.png" alt="Celtic Tree Tattoo" /><br />
Meus cachorros celtas do ano passado na esquerda e a árvore estilizada na panturrilha direita.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/07/dani_lirios_tattoo.png" alt="Tattoo de Lírios da Danielle" /><br />
Ela só queria um lírio com ramos subindo o tornozelo, mas resolveu fazer dois pra ficar mais cheio.</p>
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		<title>caeiro mais mais</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Jun 2009 00:48:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>caio1982</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Eu provavelmente serei um dos que irão entrar de férias mais tarde pra poder fazer as finais sobre modernismo português no curso de Letras, mas o mestre Caeiro é bom demais e isso porque eu acho poesia um saco sem fundo e eu humildemente admito que não entendo nada de poemas. Mas ele ganhou mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu provavelmente serei um dos que irão entrar de férias mais tarde pra poder fazer as finais sobre modernismo português <a href="http://caio.ueberalles.net/log/2009/01/25/letras-linguistica-ingles/">no curso de Letras</a>, mas <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Alberto_Caeiro">o mestre Caeiro é bom demais</a> e isso porque eu acho poesia um saco sem fundo e eu humildemente admito que não entendo nada de poemas. Mas ele ganhou mais um fã, eu.</p>
<p><strong>I</strong><br />
<em>Eu nunca guardei rebanhos,<br />
Mas é como se os guardasse.<br />
Minha alma é como um pastor,<br />
Conhece o vento e o sol<br />
E anda pela mão das Estações<br />
A seguir e a olhar.<br />
Toda a paz da Natureza sem gente<br />
Vem sentar-se a meu lado.<br />
Mas eu fico triste como um pôr de sol<br />
Para a nossa imaginação,<br />
Quando esfria no fundo da planície<br />
E se sente a noite entrada<br />
Como uma <a href="http://twitter.com/bani">borboleta</a> pela janela.</p>
<p>Mas a minha tristeza é sossego<br />
Porque é natural e justa<br />
E é o que deve estar na alma<br />
Quando já pensa que existe<br />
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.</p>
<p>[...]</p>
<p>Pensar incomoda como andar à chuva<br />
Quando o vento cresce e parece que chove mais.</p>
<p>Não tenho ambições nem desejos.<br />
Ser poeta não é uma ambição minha.<br />
É a minha maneira de estar sozinho.</p>
<p>[...]</p>
<p>Quando me sento a escrever versos<br />
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,<br />
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,<br />
Sinto um cajado nas mãos<br />
E vejo um recorte de mim<br />
No cimo dum outeiro,<br />
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias<br />
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,<br />
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz<br />
E quer fingir que compreende.</p>
<p>Saúdo todos os que me lerem,<br />
Tirando-lhes o chapéu largo<br />
Quando me vêem à minha porta<br />
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.<br />
Saúdo-os e desejo-lhes sol,<br />
E chuva, quando a chuva é precisa,<br />
E que as suas casas tenham<br />
Ao pé duma janela aberta<br />
Uma cadeira predilecta<br />
Onde se sentem, lendo os meus versos.<br />
E ao lerem os meus versos pensem<br />
Que sou qualquer cousa natural –<br />
Por exemplo, a árvore antiga<br />
À sombra da qual quando crianças<br />
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,<br />
E limpavam o suor da testa quente<br />
Com a manga do bibe riscado.<br />
</em><br />
<strong>V</strong><br />
<em>Há metafísica bastante em não pensar em nada.</p>
<p>O que penso eu do mundo?<br />
Sei lá o que penso do mundo!<br />
Se eu adoecesse pensaria nisso. </p>
<p>Que ideia tenho eu das cousas?<br />
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?<br />
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma<br />
E sobre a criação do Mundo?<br />
Não sei.  Para mim pensar nisso é fechar os olhos<br />
E não pensar. É correr as cortinas<br />
Da minha janela (mas ela não tem cortinas). </p>
<p>[...]</p>
<p>Metafísica?  Que metafísica têm aquelas árvores?<br />
A de serem verdes e copadas e de terem ramos<br />
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,<br />
A nós, que não sabemos dar por elas.<br />
Mas que melhor metafísica que a delas,<br />
Que é a de não saber para que vivem<br />
Nem saber que o não sabem? </p>
<p>[...] </p>
<p>Não acredito em Deus porque nunca o vi.<br />
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,<br />
Sem dúvida que viria falar comigo<br />
E entraria pela minha porta dentro<br />
Dizendo-me, Aqui estou! </p>
<p>[...]</p>
<p>Mas se Deus é as flores e as árvores<br />
E os montes e sol e o luar,<br />
Então acredito nele,<br />
Então acredito nele a toda a hora,<br />
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,<br />
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. </p>
<p>Mas se Deus é as árvores e as flores<br />
E os montes e o luar e o sol,<br />
Para que lhe chamo eu Deus?<br />
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;<br />
Porque, se ele se fez, para eu o ver,<br />
Sol e luar e flores e árvores e montes,<br />
Se ele me aparece como sendo árvores e montes<br />
E luar e sol e flores,<br />
É que ele quer que eu o conheça<br />
Como árvores e montes e flores e luar e sol.   </p>
<p>E por isso eu obedeço-lhe,<br />
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).<br />
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,<br />
Como quem abre os olhos e vê,<br />
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,<br />
E amo-o sem pensar nele,<br />
E penso-o vendo e ouvindo,<br />
E ando com ele a toda a hora.<br />
</em><br />
<strong>VIII</strong><br />
<em>Num meio-dia de fim de primavera<br />
Tive um sonho como uma fotografia.<br />
Vi Jesus Cristo descer à terra.</p>
<p>Veio pela encosta de um monte<br />
Tornado outra vez menino,<br />
A correr e a rolar-se pela erva<br />
E a arrancar flores para as deitar fora<br />
E a rir de modo a ouvir-se de longe.</p>
<p>Tinha fugido do céu.<br />
Era nosso de mais para fingir<br />
De segunda pessoa da trindade.<br />
No céu era tudo falso, tudo em desacordo<br />
Com flores e árvores e pedras.<br />
No céu tinha que estar sempre sério<br />
E de vez em quando de se tornar outra vez homem<br />
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer<br />
Com uma coroa toda à roda de espinhos<br />
E os pés espetados por um prego com cabeça,<br />
E até com um trapo à roda da cintura<br />
Como os pretos nas ilustrações.<br />
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe<br />
Como as outras crianças.<br />
O seu pai era duas pessoas –<br />
Um velho chamado José, que era carpinteiro,<br />
E que não era pai dele;<br />
E o outro pai era uma pomba estúpida,<br />
A única pomba feia do mundo<br />
Porque não era do mundo nem era pomba.<br />
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.<br />
Não era mulher: era uma mala<br />
Em que ele tinha vindo do céu.<br />
E queriam que ele, que só nascera da mãe,<br />
E nunca tivera pai para amar com respeito,<br />
Pregasse a bondade e a justiça!</p>
<p>Um dia que Deus estava a dormir<br />
E o Espírito Santo andava a voar,<br />
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.<br />
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.<br />
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.<br />
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz<br />
E deixou-o pregado na cruz que há no céu<br />
E serve de modelo às outras.<br />
Depois fugiu para o sol<br />
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.</p>
<p>Hoje vive na minha aldeia comigo.<br />
É uma criança bonita de riso e natural.<br />
Limpa o nariz ao braço direito,<br />
Chapinha nas poças de água,<br />
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.<br />
Atira pedras aos burros,<br />
Rouba a fruta dos pomares<br />
E foge a chorar e a gritar dos cães.<br />
E, porque sabe que elas não gostam<br />
E que toda a gente acha graça,<br />
Corre atrás das raparigas<br />
Que vão em ranchos pelas estradas<br />
Com as bilhas às cabeças<br />
E levanta-lhes as saias.</p>
<p>[...]</p>
<p>Diz-me muito mal de Deus.<br />
Diz que ele é um velho estúpido e doente,<br />
Sempre a escarrar no chão<br />
E a dizer indecências.<br />
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.<br />
E o Espírito Santo coça-se com o bico<br />
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.<br />
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.<br />
Diz-me que Deus não percebe nada<br />
Das coisas que criou –<br />
&#8220;Se é que ele as criou, do que duvido&#8221; –.<br />
&#8220;Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,<br />
Mas os seres não cantam nada.<br />
Se cantassem seriam cantores.<br />
Os seres existem e mais nada,<br />
E por isso se chamam seres&#8221;.</p>
<p>E depois, cansado de dizer mal de Deus,<br />
O Menino Jesus adormece nos meus braços<br />
E eu levo-o ao colo para casa.</p>
<p>[...]</p>
<p>Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.<br />
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.<br />
Ele é o humano que é natural,<br />
Ele é o divino que sorri e que brinca.<br />
E por isso é que eu sei com toda a certeza<br />
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.</p>
<p>[...]</p>
<p>Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas<br />
No degrau da porta de casa,<br />
Graves como convém a um deus e a um poeta,<br />
E como se cada pedra<br />
Fosse todo um universo<br />
E fosse por isso um grande perigo para ela<br />
Deixá-la cair no chão.</p>
<p>Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens<br />
E ele sorri, porque tudo é incrível.<br />
Ri dos reis e dos que não são reis,<br />
E tem pena de ouvir falar das guerras,<br />
E dos comércios, e dos navios<br />
Que ficam fumo no ar dos altos mares.<br />
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade<br />
Que uma flor tem ao florescer<br />
E que anda com a luz do sol<br />
A variar os montes e os vales<br />
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.</p>
<p>[...]</p>
<p>Esta é a história do meu Menino Jesus.<br />
Porque razão que se perceba<br />
Não há-de ser ela mais verdadeira<br />
Que tudo quanto os filósofos pensam<br />
E tudo quanto as religiões ensinam?</em></p>
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