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	<title>caio1982</title>
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		<title>my life according to nofx</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Dec 2009 18:07:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>caio1982</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Pra servir de aquecimento a volta do NOFX ao Brasil  no começo de 2010 eu participei de uma brincadeira &#8211; de responder perguntas com nomes de músicas de uma determinada banda &#8211; via Facebook que o Nivaldo, Felipe, Juliano e cia. ltda. começaram. Botei abaixo por motivos históricos. Como ninguém tem obrigação de conhecer [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pra servir de aquecimento a <a href="http://twitter.com/caio1982/status/6472566882">volta do NOFX ao Brasil</a>  no começo de 2010 <a href="http://www.facebook.com/notes/caio-begotti/my-life-according-to-nofx/226537628010">eu participei de uma brincadeira &#8211; de responder perguntas com nomes de músicas de uma determinada banda &#8211; via Facebook</a> que o <a href="http://www.facebook.com/note.php?note_id=222804338611">Nivaldo</a>, <a href="http://www.facebook.com/note.php?note_id=226577461127">Felipe</a>, <a href="http://www.facebook.com/note.php?note_id=237541128976">Juliano</a> e cia. ltda. começaram. Botei abaixo por motivos históricos. Como ninguém tem obrigação de conhecer NOFX linkei as músicas pra quem quiser poder ouvir e tal. É meio meme, mas fiquei satisfeito com a <a href="http://www.nofxofficialwebsite.com/tour/tour.php3">nouefékszada antes do show </a>deles :-)</p>
<p><strong>Pick your Artist:</strong><br />
<a href="http://en.wikipedia.org/wiki/NOFX">NOFX</a></p>
<p><strong>Are you a male or female:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64506178/5624154c/NOFX-_Punk_Guy.html">Punk Guy</a></p>
<p><strong>Describe yourself:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/102569859/fc3c93ba/10_Dads_Bad_News.html">Dad&#8217;s Bad News</a></p>
<p><strong>How do you feel:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/176039831/c21a8fc7/NOFX-_I_Gotta_Pee.html">I Gotta Pee</a></p>
<p><strong>Describe where you currently live:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64663803/bf6c16b0/NOFX-_Anarchy_Camp.html">Anarchy Camp</a></p>
<p><strong>If you could go anywhere, where would you go?</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/102569434/ddcdb1e5/09_Les_Champs_Elyses.html">Champs Elysées</a></p>
<p><strong>Your favorite form of transportation:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64458138/d12bfbae/NOFX-_SM_Airlines.html">S&#038;M Airlines</a></p>
<p><strong>Your best friend?</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64496236/11faf2c2/NOFX-_Liza_And_Louise.html">Liza &#038; Louise</a></p>
<p><strong>You and your best friend are:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/102567527/bcc2cc1a/02_Kids_of_the_K-Hole.html">Kids Of The K-Hole</a></p>
<p><strong>What&#8217;s the weather like:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64492520/6bafe764/NOFX-_Showerdays.html">Showerdays</a></p>
<p><strong>Favorite time of day:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64771675/4fe53ad6/NOFX-_60_Percent.html">60%</a></p>
<p><strong>If your life was a TV show what would it be called?</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64606284/5cd8895f/NOFX-_And_Now_For_Something_Co.html">And Now For Something Completely Similar</a></p>
<p><strong>What is life to you:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64497072/c9c340d4/NOFX-_Soul_Doubt.html">Soul Doubt</a></p>
<p><strong>Your relationship:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64521781/4bfaa64c/NOFX-_The_Desperations_Gone.html">The Desperation&#8217;s Gone</a></p>
<p><strong>Your fear:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64652671/eba1d1e4/NOFX-_Electricity.html">Electricity</a></p>
<p><strong>What is the best advice you have to give:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64377820/f69c0adc/NOFX-_Live_Your_Life.html">Live Your Life</a><br />
<strong>Thought for the Day:</strong></p>
<p><a href="http://www.4shared.com/file/20589184/c01c34d6/NOFX_-_We_Threw_Gasoline_on_th.html">We Threw Gasoline On The Fire And Now We Have Stumps for Legs and No Eyebrow</a></p>
<p><strong>My motto:</strong><br />
<a href="http://www.4shared.com/file/64771281/c8194adc/NOFX-_Youre_Wrong.html">You&#8217;re Wrong</a></p>
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		<title>sugestões de leitura</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Dec 2009 14:04:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>caio1982</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Eu não costumo fazer listas de coisas e ficar sugerindo para os outros como se fosse guia espiritual, mas esse ano o meu ritmo de leitura foi tão bom que eu havia começado a escrever umas linhas sobre cada uma. Como não tenho mais nada pra ler até a virada do ano, peguei o que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu não costumo fazer listas de coisas e ficar sugerindo para os outros como se fosse guia espiritual, mas esse ano o meu ritmo de leitura foi tão bom que eu havia começado a escrever umas linhas sobre cada uma. Como não tenho mais nada pra ler até a virada do ano, peguei o que li esse ano e botei abaixo com o motivo pra eu ter lido cada uma das coisas e uma singelinha recomendação. Eu tinha quase desistido dessa idéia, mas aí o <a href="http://www.felipearruda.com/blog/">Felipe</a> falou que tava pra fazer a mesma coisa e mudei de idéia.</p>
<p><a href="http://www.librarything.com/profile/caio1982">Na minha página do Library Thing</a> &#8211; bendito e excelente serviço online (um dos poucos com utilidade bem alta hoje em dia) &#8211; tem tudo o que eu já li, mas resolvi listar só os desse ano porque <a href="http://caio.ueberalles.net/log/2009/01/25/letras-linguistica-ingles/">fiz muitas matérias pouco técnicas na UFPR</a>, li muita coisa variada nos períodos de férias dela e tirei minhas melhores médias de literatura; feito impressionante porque são as disciplinas mais chatas.</p>
<p>Tudo isso seria irrelevante se eu não tivesse gostado da maioria dos livros, por isso eu fiz isso aqui:</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/alice.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/8288">Alice&#8217;s Adventures in Wonderland</a></strong> (Lewis Carroll): um clássico, li de forma espaçada nas idas ao banheiro após almoços (um capítulo curto por dia). A leitura às vezes travava, eu não esperava tantos trocadilhos e jogos linguísticos e por ser tudo em inglês deu um certo trabalho mas foi agradável como preparação pra adaptação cinematográfica do Tim Burton que sai logo mais. Recomendo (o original em inglês) por ser um clássico infantil que muitos não conhecem de ler mas só de ouvir falarem.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/amadeus.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/36791">Amadeus</a></strong> (Peter Shaffer): surpresa e surpresa, é isso que Amadeus foi pra mim. Eu já sabia que existia o filme mas não conhecia a história, e ela é simplesmente incrível. A trama é acompanhar a vida do Mozart enquanto um outro músico da época é o narrador frustrado, com pitadas de humor bizarro e muita música. Eu primeiro li o roteiro da peça e depois vi o filme e <a href="http://www.flixster.com/movie/amadeus">diria que virou um dos top dez de filmes de temática musical pra mim</a>. A história do livro é um pouco diferente do filme, no livro o protagonista não é o Amadeus e sim o Salieri e no filme não é nenhum dos dois; chegamos no acordo, durante uma aula na UFPR, que o protagonista do filme é a música do Mozart em si e o autor parece concordar com isso. <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Amadeus_(film)">Recomendadíssimo se você topar inclusive assistir o filme</a>.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/blindness.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/3773276">Ensaio Sobre a Cegueira</a></strong> (José Saramago): virou clássico e era sempre recomendado por amigos como um bom livro de um baita escritor. Eu e a Danielle devoramos ele, adoramos e acredito que a história de uma epidemia de cegueira branca seja conhecida suficiente pra economizar descrições. Eu achei o final simplesmente bom: elegante, tranquilo e sem enrolações complicadas. O filme entrega diversos spoilers mas se serve como incentivo pra ler o livro a escrita do Saramago é estranha, muito, mas flui num ritmo impressionante; na página 10 você já se acostumou e não para de ler. Recomendo pela experiência de leitura.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/imp.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/3959486">The Bottle Imp</a></strong> (Robert Louis Stevenson): leitura quase boba pra uma apresentação em inglês na UFPR, The Bottle Imp é sobre uma fábula, ou lenda, ou conto sobre pactos com o demônio no Havaí e Taiti. A história, parte das <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Island_Nights'_Entertainments">Island Nights&#8217; Entertainments</a>, é bem legal na verdade&#8230; tem conceitos morais interessantes e é linguisticamente bem rica, com vocabulário da polinésia francesa e havaiano. Recomendo pelo tema e pelo contexto da história que não são muito comuns de ser ler mais.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/hurin.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/1907912">The Children of Húrin</a></strong> (J. R. R. Tolkien): vai ser de longe a minha recomendação de leitura mais enviesada, com certeza. O livro detalha lindamente a sina dos filhos de Húrin, fala sobre humanos amaldiçoados nos livros do Tolkien. A história é uma das melhores do Tolkien e não sei se a tradução é boa no lançamento nacional mas é sem dúvida um dos melhores livros de fantasia e ficção que já li. É desgraça atrás de desgraça, você fica até depressivo de tantas coisas ruins que acontecem com os filhos do Húrin. Não tem como comentar a história sem dar spoilers. Recomendo pela história foda, ilustrações bonitas, linguagem alto nível e por ser fantasia de qualidade.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/salesman.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/4865">Death of a Salesman</a></strong> (Arthur Miller): foi a minha leitura inicial no mundo do cara que criou <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/As_Bruxas_de_Salem">As Bruxas de Salem</a>. Death of a Salesman me emocionou bastante, pela primeira vez alguém misturou fluxo de consciência com múltiplos tempos de narração no teatro. O personagem principal Willy Loman é um pai &#8220;fracassado&#8221; com filhos perdedores e que mostra o que o Miller acha do tal sonho americano: nunca existiu e se existiu é algo apodrecido. <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Death_of_a_Salesman_(1985_film)">O filme feito pra televisão com o Dustin Hoffman faz qualquer um que teve pai lacrimejar um pouco</a>. Recomendo pelo contexto histórico e cultural dos EUA.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/doisirmaos.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/171564">Dois Irmãos</a></strong> (Milton Hatoum): foi uma recomendação de amigos da faculdade e do <a href="http://www.logorreia.com.br/">meu fiel revisor e sempre prestativo amigo literário</a>. Depois de ler Dois Irmãos eu <a href="http://www.livrariascuritiba.com.br/?system=agendacultural&#038;cidade=curitiba&#038;mes=6&#038;ano=2009">fui até num evento das Livrarias Curitiba onde o Hatoum ia dar entrevista e autografar livros</a>, pra conhecê-lo um pouco. A história é bonita e fácil de se identificar em linhas gerais, fala de gêmeos que moram em Manaus e conta a vida deles até os últimos dias da maioria dos personagens; basicamente trata das richas entre irmãos. Recomendo por ser boa literatura atual e ambientação nacional.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/snakes.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/6291124">Don&#8217;t Sleep, There Are Snakes: Life and Language in the Amazonian Jungle</a></strong> (Daniel Everett): foi um dos poucos livros de linguística (e mesmo assim nem tanto) que li esse ano. O Everett é <a href="http://www.google.com/search?q=chomsky+everett+pirahã">o mesmo cara que citam quando vão falar dos índios pirahãs e os problemas linguísticos deles que o prepotente do Chomsky ignora</a>, no livro ele narra os quase 30 anos que viveu na Amazônia com eles e conta dia-a-dia, curiosidades, cultura e conflitos que encontrou. O ponto alto do livro é quando ele conta como deixou de ser missionário evangélico na selva pra ser ateu e toda sua família o abandonou. Recomendo se gosta de cultura indígena e linguística.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/doubt.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/129929">Doubt: A Parable</a></strong> (John Patrick Shanley): é &#8220;<a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Doubt_(2008_film)#Awards">o livro que deu origem ao filme</a>&#8221; no jargão do SBT, e gostei pela simplicidade extrema. Eu nunca vi a peça mas diz a lenda que a montagem feita no Brasil não ficou boa, e pra ser sincero eu esperava mais do filme com o Philip Seymour-Hoffman e Meryl Streep. A história gira em torno de dúvidas bem humanas que temos, só isso, mas num ambiente de padres e freiras com suspeitas entre eles, pega pra capar. O roteiro da peça é mais misterioso que o filme, é impossível você tomar qualquer tipo de partido. Recomendo por ser algo contemporâneo e curtinho, cinquenta páginas.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/jekyllhyde.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/12349">The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde</a></strong> (Robert Louis Stevenson): é uma história bem mamão-com-açúcar que de assustadora ou emocionante eu não achei nada. Do Stevenson eu preferi The Bottle Imp mesmo, apesar desse ser mais clássico e conhecido. Recomendo só se estiver interessado em conhecer um clássico qualquer.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/familia.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/548587">Laços de Família</a></strong> (Clarice Lispector): foi a única leitura da Clarice Lispector que realmente gostei e mesmo assim foi enigmática demais em alguns momentos. São contos geralmente curtos sobre o cotidiano mas com uma tendência forte pra visões femininas, normal da Lispector. Recomendo só se quiser ler algo da Lispector por curiosidade.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/formacao.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/253914">Formação Econômica do Brasil</a></strong> (Celso Furtado): é um livro que eu sempre recomendo quando posso, pra conhecidos que gostam de leituras de fundo socio-econômico. O <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Celso_Furtado">Celso Furtado é um dos mestres pra ler no curso de Economia</a> da Danielle, e apesar de existir muita crítica moderna a pesquisa que ele fez no livro o texto permanece excelente apesar do tempo. Ele explora a formação econômica desde as capitanias até antes do golpe militar, período do JK mais ou menos. Recomendo por ser abrangente, sério e leitura fácil.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/menagerie.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/34387">The Glass Menagerie</a></strong> (Tennessee Williams): é um roteirinho sem muito sal que acabou virando filme preto-e-branco décadas atrás e que é até interessante mas nada muito espetacular. A história é sobre conflitos dentro de uma família problemática meio que durante o período de recessão norte-americana; a mãe maluca, a filha retraída, o filho rebelde e o pai ausente. Recomendo só se puder ver o<a href="http://www.youtube.com/watch?v=SumagAF4nU8"> filme na versão com o Sam &#8220;Jack Law &#038; Order McCoy&#8221; Waterston</a>.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/sertao.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/3991463">Grande Sertão: Veredas</a></strong> (Guimarães Rosa): é daqueles livros que todo mundo fala bem, a maioria não lê e você evita por falta de vontade, mas que foi <a href="http://caio.ueberalles.net/log/2009/10/16/oficializacao/">uma das maiores revelações pra mim</a> em todos esses anos alfabetizado. Fiz uma leitura mais lenta, crítica e estudando cada trecho numa disciplina da UFPR, então admito ter tido mais facilidades pra ler. Sertão de Goiás, partezinha da Bahia, Tocantins e afins. Muitas mortes, conflitos internos e surpresas. Genialidade em como brinca com palavras. Recomendo por hoje considerar uma das maiores obras em português que existe.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/hamlet.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/2199">Hamlet</a></strong> (William Shakespeare): eu acho que só rendeu bem porque li uma engraçadíssima e bem feita tradução do Millôr Fernandes, emprestada do Felipe. História de algo podre no reino da Dinamarca, clássica. Lia enquanto esperava aulas na UFPR, nos corredores, então a leitura &#8211; por causa da boa tradução &#8211; rende bem. Recomendo pela tradução e pelo classicismo da história.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/sempressa.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/9294107">Histórias Para Ler Sem Pressa</a></strong> (Mamede Mustafa Jarouche): é o tipo de leitura perfeita pra banheiro, parque ou enquanto se espera alguma coisa num canto qualquer. São pequenas (e algumas médias) histórias dos séculos IX ao XVIII, algumas não passando de meia página, sobre vários assuntos com temática árabe pra não dizer muçulmana. São todos textos árabes antigos e traduzidos muito bem pelo Jarouche. Minha preferida é sobre como amedrontar embaixadores pra eles se converterem ao islamismo. Adorei o livro mesmo. Recomendo por ter sido algo exótico (pra mim) e um resgate de textos antigos.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/boys.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/2980228">The History Boys</a></strong> (Alan Bennett): é bom pra quem é culturamente foda e percebe e entende referências em textos com facilidade. Não é o meu caso, detesto pedantismo em livros. A história de um grupo de garotos ingleses tentando entrar na faculdade e passando pela adolescência tem tantas referências de arte, literatura, música e filme que irrita. Irrita muito. A maioria delas são referências gays do autor, o que é compreensível porém cansativo. Recomendo só se tiver tempo livre e saco pro humor escrito britânico.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/estrela.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/221304">A Hora da Estrela</a></strong> (Clarice Lispector): é, junto talvez quem sabe por que não de Laços de Família, algo minimamente interessante da Lispector. Uma história fofinha sobre uma coitada que só se fode mas sempre segue em frente. Leitura curta e rápida que li no começo do ano, coisa pra se ler em fim de semana com tempo sem nada o que fazer. Recomendo só se gostar da Lispector, não vi muito mérito na leitura apesar de fofinha.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/ontheroad.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/3207">On The Road</a></strong> (Jack Kerouac): meio que foi febre entre amigos meus, mas pra mim foi mesmo uma excelente leitura e experiência bem temporária de porra-louquice. Quando vi <a href="http://www.nypl.org/press/2007/Beatific_exhibition.cfm">a exposição do On The Road</a> nas <a href="http://caio.ueberalles.net/log/2008/03/09/recordacoes-manhattianas/">férias de 2008</a> eu fiquei bem animado pra ler o livro, ver o original e desenhos da viajem do Kerouac através dos EUA nos anos 50 me deixou empolgado por um tempo. Recomendo por ser um marco cultural e de literatura de viagens.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/othello.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/10264">Otelo</a></strong> (William Shakespeare): é outro clássico eterno que todos falam mas que não me animou tanto quanto eu pensei que faria. Me irritou bastante o fato de confundirem &#8220;negro&#8221; com &#8220;mouro&#8221; em análises que li do livro que fala de intrigas de palácio. <a href="http://www.utp.br/eletras/texto/RS_artigo_18.7_Celia_Arns_de_Miranda_Shakespeare_em_versao_musical.pdf">A melhor adaptação que eu vi</a> é brasileira inclusive: Otelo da Mangueira, anote o nome. Recomendo ler porque é Shakespeare e porque o Iago é um dos maiores vilões que já criaram.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/gh.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/500449">A Paixão Segundo G.H.</a></strong> (Clarice Lispector): é o vômito do bêbado no fim da festa. Fãs da Lispector podem se revirar, mas o livro é escrito o que as fotos dela são visualmente: frescura e pose. Tentei ao máximo até estudar de forma séria o livro noutra disciplina da UFPR, mas não dá. É horrível, sem propósito, nem mesmo uma experiênciazinha estética minimamente interessante. Nada. É engraçado que todos se lembram desse livro pela protagonista comer uma barata&#8230; grande coisa. Recomendo só sob tortura.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/preconceito.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/7120064">Preconceito Linguístico: O Que é, Como Se Faz</a></strong> (Marcos Bagno): apareceu como uma leitura atrasada. Eu deveria ter lido ele antes até mesmo por estudar linguística, mas só deu esse ano. Não tem como discordar muito do Bagno, ele sintetiza tudo que é preciso resolver a respeito do assunto, muitas vezes até sem se estender muito. Recomendo como uma leitura de curiosidade, pouco técnica mas relevante.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/estorias.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/4022143">Primeiras Estórias</a></strong> (Guimarães Rosa): foi uma espécie de preparação pra eu ler o GS:V, não li todas as histórias mas a maioria. A edição que tenho foi meio que dada e tem desenhos que ilustram cada uma das histórias, bem bonitos. Assuntos variados, não tem como resumir nada direito. Recomendo se quiser ler algo antes de GS:V ou como complemento posterior ao Guimarães Rosa.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/romeujulieta.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/2225">Romeu e Julieta</a></strong> (William Shakespeare): foi junto com Titus Andronicus e Otelo a leitura de uma disciplina sobre Shakespeare na UFPR esse ano, mas não gostei das traduções bem intencionadas porém infiéis da Barbara Heliodora. A história todo mundo conhece, então sugiro ler estudando o que Shakespeare queria dizer em vários trechos, tem bastante fatos sociais e culturais da época e quebra de tabus. Recomendo se não tiver o preconceito que eu tive com <a href="http://www.flixster.com/movie/william-shakespeares-romeo-juliet1996">o filme Romeo + Juliet</a>, vale a pena assistí-lo depois de ler porque a adaptação é muito boa mesmo.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/streetcar.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/21544">A Streetcar Named Desire</a></strong> (Tennessee Williams): foi melhor que The Glass Menagerie do próprio Tennessee Williams, mas não gostei tanto assim também. A história é boa até, vida simples em New Orleans enquanto o mundo vai mudando, alcoolismo, brigas em família e ilusões. A versão em <a href="http://images.google.com/images?q=streetcar+named+desire">filme com o Marlon Brando é boa como falam, mas nem tanto assim</a> IMHO. Recomendo se gostar de frases de impacto clássicas pra citar pros amigos.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/megera.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/4941">A Megera Domada</a></strong> (William Shakespeare): me surpreendeu pelo fator WTF. Talvez tenha sido pelo mesmo fato que o Felipe achou estranho o livro, <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Cravo_e_a_Rosa">eu também ficava imaginando o Petruchio e a Catarina da novela da Globo</a> enquanto eu lia. A história é legal &#8211; como na novela &#8211; bastante comédia e às vezes até um pouco ácida. Rola romance, birras e tal. Recomendo pela tradução e tom de comédia bom de ler enquanto espera pra fazer outra coisa.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/zoostory.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/611025">The Zoo Story</a></strong> (Edward Albee): é uma peça bastante curta sobre a impossibilidade de comunicação entre pessoas e situações limite com choque entre universos pessoais. Não sei examente o que dizer dela além disso e que é uma peça interessante do Teatro do Absurdo. Recomendo <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Theatre_of_the_Absurd">se quiser ler algo de Teatro do Absurdo</a>, não é o tipo de texto ou atuação no teatro que me empolga.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/titus.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/15307">Titus Andronicus</a></strong> (William Shakespeare): foi possivelmente a minha maior empolgação com Shakespeare até hoje, pelo constraste dessa história sanguinolenta e violenta em relação a outras dele e pelas referências clássicas do texto que me levou a dar uma estudada leve em como Titus Andronicus é uma atualização da <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Oresteia">Oréstia do Ésquilo</a> pra Inglaterra renascentista, <a href="http://twitter.com/caio1982/status/5708910069">como andei falando no Twitter</a>. História de vingança, justiça, assassinatos, &#8220;gore&#8221; total. Recomendo por ser algo muito diferente do Shakespeare convencional e se já leu a Oréstia.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/vendetta.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/7114">V de Vingança</a></strong> (Alan Moore): acabei só lendo no fim desse ano depois de ter visto o filme e &#8211; oh, novidade! &#8211; achei a história em quadrinhos realmente mais legal que o filme. Revi o filme logo em seguida pra ter certeza e os diálogos dos HQs são melhores e tem mais coisa na história, que no cinema acabou ficando ou curta demais ou sem muitas costuras ou ambas as coisas. Futuro sombrio, distopia, terrorismo do bem. Recomendo pra abrir a mente e relaxar com quadrinhos bem feitos.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/godot.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/2156">Waiting for Godot</a></strong> (Samuel Beckett): é uma outra peça estranha, como The Zoo Story foi. Se quiser lê-la eu recomendo fortemente procurar algo sobre Teatro do Absurdo antes ou irá se frustrar por não entender o propósito quase psicodélico da história. Pense numa situação entre pessoas que entra em loop infinito. É um clássico do Beckett e precisei me esforçar bastante pra ter interesse no livro. Recomendo pra poder dizer que já leu algo do Teatro do Absurdo de verdade.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/flames.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/4950082">When You Are Engulfed In Flames</a></strong> (David Sedaris): foi o que fez eu passar a gostar do <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/David_Sedaris">Sedaris</a> de verdade. <a href="http://www.newyorker.com/magazine/bios/david_sedaris/search?contributorName=david%20sedaris">Eu já havia lido online textos dele</a> e coisas enviadas por colegas que já o conheciam, mas When You Are Engulfed In Flames (além de ter uma capa massa) é excelente como texto de cotidiano e vida medíocre, pra não dizer banal também. São diversas histórias: curtas, médias e longas sobre tudo quanto é assunto do dia-a-dia do cara. Recomendo por ser uma leitura em inglês fácil e divertida.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/12/wit.jpg" alt="" /><br />
<strong><a href="http://www.librarything.com/work/2271">Wit: A Play</a></strong> (Margaret Edson): é de uma suavidade porém tão forte que não sei descrever; é &#8220;<a href="http://dictionary.reference.com/browse/wit">wit</a>&#8221; no sentido mais puro da palavra e tem que ler pra entender. Resumindo, uma acadêmica das mais conceituadas e nerd assumida tem duas horas de vida em um hospital e a gente vai vendo ela definhando enquanto sua mente vai desaparecendo. Parte da graça da história vem da protagonista conversar com o leitor. História bastante triste, bonita e bem humanizadora. Se puder, <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Wit_(film)">veja o filme com a Emma Thompson</a>&#8230; é de chorar, juro. Recomendo por mostrar condições humanas quase universais.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>rant sobre microblogging</title>
		<link>http://caio.ueberalles.net/log/2009/10/26/rant-sobre-microblogging/</link>
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		<pubDate>Mon, 26 Oct 2009 23:49:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>caio1982</dc:creator>
				<category><![CDATA[universal]]></category>
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		<description><![CDATA[Alguns amigos meus já não aguentam mais me ouvir falar mal do Twitter, mesmo assim resolvi fazer um rant sobre microblogging pensando basicamente nele. Antes de começar a usar o Twitter eu já falava mal dele, mas então comecei a usar por causa de features específicas e até pelo menos 5 minutos atrás eu não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Alguns amigos meus já não aguentam mais me ouvir falar mal do Twitter, mesmo assim resolvi fazer um rant sobre microblogging pensando basicamente nele. Antes de começar a usar o Twitter eu já falava mal dele, mas então comecei a usar por causa de features específicas e até pelo menos 5 minutos atrás eu não conseguia falar bem do serviço deles por muito tempo. Isso chega a ser engraçado pra alguém com tempo de sobra pra escrever tudo isso, deve significar que gosto mais do Twitter do que realmente admito. Enfim, resolvi listar problemas e idéias que na minha opinião são relevantes. Ato popularmente conhecido como chorar pitangas :-)</p>
<p>Já me ouviu falar do Twitter antes? Se sim, não tem nada aqui que seja realmente novidade&#8230;</p>
<h2>1. Reply de twits</h2>
<p>Se você já mencionou <a href="http://twitter.com/caio1982">@caio1982</a> alguma vez em um twit seu e estranhou eu não fazer nenhum comentário a respeito, ou pior, recebeu uma direct message ou e-mail meu com assunto &#8220;re: twitter&#8221; não leve pro lado pessoal. Eu não faço replies para twits. Nunca. E não farei até que reply de mensagem seja tratado como metadado de verdade. É estúpido: se você não clicar em reply e não botar o @foobar no começo do twit o sistema ignora isso às vezes, não é algo consistente (nem para replies nem para retwits), não fiz testes pra ver como é mesmo mas acontece de darem reply pra uma mensagem e quando você vai ver é um twit já antigo na timeline. Duh!</p>
<p>Se você se propõe a criar timelines, o mínimo que se espera é que você consiga manter um encadeamento dos itens (twits) de forma consistente e sem adicionar peso nas costas do usuário, como quando antigamente era preciso ser rápido e responder um twit na hora, caso contrário você iria responder sobre flores e seu amigo já havia postado algo novo sobre esterco de vaca. Foi isso inclusive que matou o <a href="http://www.quotably.com/">Quotably.com</a>, uma pena.</p>
<p>Não importa o que você digita, se foi via botão de reply deveria ser tratado como tal e de forma transparente. A desculpa que isso é compatibilidade com SMS não cola, quase ninguém usa SMS no Twitter hoje em dia (foi só a centelha e chamativo no começo), quem usa Twitter no celular já usa um aplicativo específico para isso. Além disso o Twitter quase não suporta SMS, se você não está em país foda você é ignorado.</p>
<p>Outro ponto que me parece estúpido no funcionamento de replies em twits é quando você estranha determinada pessoa por não ver twits dela já faz algum tempo, aí você decide abrir o perfil dela manualmente e percebe que ela tem sim postado bastante coisa&#8230; mas falando com outras pessoas e você não ficou sabendo. Mas como assim, doutor? Por algum motivo sem sentido o Twitter parou de exibir todos os twits, mesmo replies para terceiros, e agora só mostra replies de seus following se você estiver seguindo a pessoa a quem seu following deu reply. É nonsense total, uma rede social não deveria se limitar a comunicação um-para-um&#8230; é (quer dizer, era) útil ver pessoas novas apra seguir em conversas não iniciadas por você.</p>
<h2>2. Metadados não deveriam ser contados</h2>
<p>Eu acho bacana e charmosinho manter o limite de caracteres em 140 no Twitter, acho legal. Infelizmente isso atrapalha quando a ferramenta cresce absurdamente e começam a entupir twits com tags #foobar #thereitis #myarse. Pense num twit que já é uma frase meio longa, com várias tags e que alguém resolva fazer retwit. Lá se vão mais caracteres no lixo pelo RT: antes da mensagem. Quando você percebe já não tem espaço pra mais nada. Seus 140 caracteres foram pro espaço.</p>
<p>Uma solução pra isso seria não contabilizar metadados (hoje consolidados) como RT: ou #tags e fazer com que eles até fossem contabilizados, mas separadamente do texto do twit. Você teria 140 caracteres pro twit e outros 140 pra metadados &#8211; chutando o balde na quantidade de metadados e isso se quiser usá-los, é claro. Um mockup rápido que fiz talvez ajude a entender a contagem individual de cada um como imaginei na minha cabeça:</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/10/caio1982-metadata-mockup.png" alt="Mockup de metadados no Twitter" width="794" height="308" /></p>
<p>Além disso, não dá pra saber como o Twitter irá implementar suporte a RT: ainda, mas pelos screenshots parece que será tudo ou nada, clicou em retwit já era, não poderá editar ou acrescentar nada ao twit original; o que quebra o uso que a maioria das pessoas dá a feature. É algo que deveria ser modificado antes de ir pra produção também, IMHO.</p>
<h2>3. Namespace privado</h2>
<p>Demorou para o time do Twitter adicionar suporte a namespaces pra empresas, governos ou instituições além de uma pessoa comum. Na verdade até seria legal qualquer usuário comum ter um namespace próprio, meio que na mesma idéia de namespaces em páginas wiki. Vivem dizendo e reclamando que o Twitter não possui meios de ganhar dinheiro, eu acho que namespaces poderiam ser vendidos pelo Twitter assim como domínios de site são. Eu, por exemplo, poderia pagar pelo namespace &#8220;begotti&#8221; e pessoas da minha família que usam Twitter poderiam ter perfis como:</p>
<p><a href="http://twitter.com/begotti/pai">http://twitter.com/begotti/pai</a><br />
<a href="http://twitter.com/begotti/pedro">http://twitter.com/begotti/pedro</a></p>
<p>De quebra você poderia ter uma página de namespace custom, quase como de um perfil normal, mas não tão dinâmica. Assim você teria grupos ou aglomerados &#8220;oficiais&#8221; (palavrinha que ajuda na idéia de vender namespace para instituições, também). Eu não aguento mais ver perfis da NASA, cada um tem um nome diferente começando com <a href="http://twitter.com/NASA_Wallops">NASA mais um underscore</a> ou então <a href="http://twitter.com/Astro_Ron">Astro mais underscore e então o nome do astronauta</a>. Isso é feio. É idiota. Poderiam, no lugar disso, ter algo como:</p>
<p><a href="http://twitter.com/nasa/news">http://twitter.com/nasa/news</a><br />
<a href="http://twitter.com/nasa/kelly">http://twitter.com/nasa/kelly</a><br />
<a href="http://twitter.com/nasa/ron">http://twitter.com/nasa/ron</a><br />
<a href="http://twitter.com/nasa/astronauts">http://twitter.com/nasa/astronauts</a></p>
<p>Empresas grandes (como a <a href="http://twitter.com/digium">Digium</a>, virtual dona do <a href="http://www.asterisk.org">Asterisk.org</a>) poderiam ter seus namespaces também agrupando perfis do Twitter de seus departamentos etc. Algo assim:</p>
<p><a href="http://twitter.com/digium/sales">http://twitter.com/digium/sales</a><br />
<a href="http://twitter.com/digium/switchvox">http://twitter.com/digium/switchvox</a><br />
<a href="http://twitter.com/digium/events">http://twitter.com/digium/events</a><br />
<a href="http://twitter.com/digium/press">http://twitter.com/digium/press</a></p>
<p>Fato: se você criar uma forma das pessoas se sentirem especiais no meio de um mar de usuários, alguns irão topar pagar por isso. Acho que vale o esforço e agregaria algum valor que hoje é desperdiçado. Hoje já fazem checagem de perfis de celebridades e políticos, fazer isso para instituições ou usuários querendo namespaces não seria mais complicado do que já é hoje. Namespaces seriam uma forma de você ter um ID único mesmo ele já tendo sigo pego por alguém antes. Claro, corre-se o risco de criar algo &#8220;bom demais&#8221; para algo que nem mesmo é visto como problema pela maioria dos usuários.</p>
<h2>4. Contas pagas com diferenciais</h2>
<p>Outra forma do Twitter gerar algum dinheiro seria dar mais liberdade criativa para contas pagas. Por exemplo: não faz o menor sentido eu entrar no perfil da Amazon e ver aqueles quadrados de following e followers deles&#8230; quem se importa com essas pessoas? Role a página e verá o espaço desperdiçado ali. Se perguntar pra Amazon o que eles achariam de usar esse espaço pra botar boxes de produtos e coisas deles ao invés de boxes de usuários, acho que já sabemos a resposta. Pense nessa idéia para empresas como a <a href="http://www.engadget.com/2009/09/14/apple-itunes-lp-format-gets-dissected-explained/">Apple pensou no iTunes LP para selos e gravadoras</a>. Imagine o que o <a href="http://twitter.com/novo_submarino/">Submarino</a>, <a href="http://twitter.com/AMERICANASCOM">Americanas.com</a> ou mesmo <a href="http://twitter.com/passagensaereas">o Twitter do Passagens Aéreas</a> poderiam fazer com isso.</p>
<p>Eu adoraria dizer também que poderiam cobrar para se ter contas de conteúdo privado, mas vou me limitar a reclamar de filhos da puta covardes e medrosos que acabam com toda a idéia de conteúdo online: se você não quer nada seu na internet, então se tranque no quarto sem energia elétrica, cacete. Imagine se todo mundo protegesse seu perfil para somente followers poderem ver seus twits, o Twitter seria uma rede social ultra secreta onde nada é legível e você quase não tem conexões. Não chegaria ao ponto disso não ser possível mais, apenas precisariam pagar pela suposta (e sempre fraca) privacidade.</p>
<h2>5. Anúncios com sharing entre usuários</h2>
<p>Eu detesto anúncios e costumo chamar de mendigos virtuais pessoas que entulham seus sites pessoais com coisas do Google só para ganhar alguns centavos por clique. É irritante e costuma (no meu caso) manchar a imagem do lugar que estou visitando. Porém, no Twitter poderia existir uma espécie de &#8220;anúncio do bem&#8221; ou &#8220;ads justos&#8221; segundo minha mente doentia. O principal ponto da idéia é: compartilhar o rendimento dos anúncios com os donos dos perfis ou namespaces. Segundo ponto: anúncios padronizados e não intrusivos no layout do Twitter,  com pouca margem pra abuso visual. Terceiro ponto: os anúncios podem ser desligados caso você não queira ganhar algum dinheiro em parceria com o Twitter ou simplesmente não ache que ads são esteticamentes super ultra hiper pirados. Isso tudo, claro, para usuários web do Twitter&#8230; tratar usuários via aplicativos é outra história (que eu prefiro ignorar).</p>
<p>Uma idéia possível, estilo cabeçalho antes de qualquer coisa na página (o link em azul é horrível, eu sei, mas foi de propósito pra ficar visível no exemplo e eu poder continuar falando sem gritarem &#8220;dê exemplos&#8221;):</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/10/tarifadetaxi-ad-mockup.png" alt="Mockup de Anúncio no Twitter" width="550" height="257" /></p>
<h2>6. Protocolo aberto</h2>
<p>Querendo ou não, o estilo de microblogging que o Twitter criou não vai morrer, logo é algo que não pode, não deve, e mais cedo ou mais tarde não irá ficar na mão de um único site. É muito 1998 ter medo da concorrência e não incentivar a criação de um protocolo aberto e distribuído de microblogging. Se o Twitter não liderar isso, vai comer poeira porque isso é uma questão de tempo para acontecer. O Twitter inclusive poderia, como prova de boa fé, dar um passo inicial aprendendo com o <a href="http://www.dataliberation.org/">Data Liberation Front</a> do Google e lançando um &#8220;Escaping from Twitter&#8221; no molde dos projetos já cobertos pela idéia. Uma vez fiz <a href="http://caio.ueberalles.net/svn/scripts/backup_twitter.sh">um script tosco pra fazer backups dos meus twits</a>, de vez em quando eu rodo ele e guardo tudo para o dia em que houver concorrência de verdade ao Twitter. De novo: é uma questão de tempo, um dia eu ou qualquer outra pessoa sairá de lá por um lugar melhor. Infelizmente não é agora que veremos concorrência de verdade ao Twitter, o <a href="http://identi.ca/">Identi.ca</a> tem que comer muito arroz feijão ainda.</p>
<h2>7. Feed no lugar do antigo tracking bot</h2>
<p>A principal feature do Twitter que me convenceu a usá-lo foi o bot via instant messaging que existiu durante algum tempo. Isso antes da famosa baleia voadora do Twitter virar moda. O bot vivia dando problema e foi o primeiro a ser exterminado da face da terra, IIRC. Se hoje a cada baleia voadora que vejo eu ainda imagino nerds sujos suando pra manter dois servidores caseiros no ar com todo o site, imagina naquela época como era. Uma pena, porque era muito, muito legal pedir tracking de palavras pro bot e ver ele te mandar mensagens sempre que alguém mencionava XYZ em qualquer lugar do mundo. Entendo que deveria ter um peso enorme no serviço deles, deveria ser algo caro, mas acho que dá pra retomar a idéia criando feeds públicos de certos termos que todo mundo procura. É ingênuo achar que eles criavam dois trackings diferentes se eu e mais uma pessoa pediamos &#8220;brasil&#8221;, logo feeds públicos e quase estáticos não seriam um problema, acho.</p>
<h2>8. Trending topics é frágil demais</h2>
<p>Eu não costumo navegar pelas entradas do box trending topics do Twitter, mas vivo dando uma olhada pra ela só pra ver quem está na lista. Não é uma feature que eu uso, mas talvez isso seja devido a forma como ela funciona hoje. Pra mim, os trending topics são uma lista pequena demais. Particularmente pequena quando começa os vários bombing semanais com nomes de artistas e eventos. Brasileiros já provaram ser especialmente idiotas (todavia eficientes) em entupir os trending topics com bobagens como &#8220;artista-famoso tem que voltar pro brasil!&#8221;. Uma idéia seria ter uma página com uns 50 trending topics, só que gerada de tempos em tempos (sei lá, 1 minuto é realtime suficiente nesse caso) e armazenada estaticamente, como os trackings. Quando acontece bombing nos trending topics fica impossível saber o que realmente é trending topic e o que é spam camuflado de &#8220;vamos lá amigos, vamos fazer XYZ virar trending topic&#8221; no melhor estilo corrente de e-mail. Isso não é trending, isso é histeria coletiva.</p>
<h2>9. Encurtadores de URL</h2>
<p>Acho difícil existir outro serviço que tenha ajudado tanto na explosão dos encurtadores de URL quanto o Twitter. Até hoje aparece algum novo querendo ser mais curto ainda ou com nome bonitinho. Eu uso somente o <a href="http://tinyurl.com/">TinyURL</a>, sei lá porquê, só sei que não gosto do Bit.ly e no fundo não gosto de nenhum desses serviços sujando os twits postados online. Vira uma zona, trocentos serviços ao mesmo tempo, você não sabe o que é texto e o que é URL mais, tosco total (tento ao máximo usar custom alias no <a href="http://tinyurl.com/">TinyURL</a> pra aliviar um pouco mas nem sempre é possível).</p>
<p>Um: o serviço pra encurtar a URL tinha que ser configurável ou pelo menos por padrão não encurtar nada que eu digitei. Achei podre uma vez ter colado um link em um twit e apareceu um link pro <a href="http://bit.ly/">Bit.ly</a> sem eu querer. Dois: por que diabos não somem logo com o nome dos serviços nas URLs? Ninguém quer saber o serviço por trás, as pessoas querem saber que XYZ é um link e querem abrir ele, só isso. Poderiam muito bem filtrar no momento do post do twit a string <a href="http://tinyurl.com/yhl3htw">http://tinyurl.com/yhl3htw</a> para virar <a href="http://tinyurl.com/yhl3htw">http://yhl3htw</a> que de quebra ajudaria a diminuir a contagem de 140 caracteres. Eu não acho que URLs sejam metadados e o meu medo desses serviços de URLs falirem e levarem metade dos links do universo pro limbo é coisa pra outro texto, mas uma ajudinha mascarando endereços seria legal.</p>
<h2>10. Listas e favoritos</h2>
<p>Vou juntar duas idéias em uma só: o novo recurso de listas é muito legal mas eu senti falta de poder criar além de uma lista pública ou privada uma lista somente para followers (uma mistura de pública e privada, talvez) e pela primeira vez na minha vida durante essa semana que passou eu vi alguém usando o recurso de twits favoritos do Twitter. Na minha cabeça se isso demorou tanto tempo é porque (por amostragem) poucos usam mesmo, então talvez pudessem permitir marcar um perfil do Twitter como &#8220;hot&#8221; e não marcar twits como favoritos. Twits são muito etéreis pra serem marcados como favoritos, não faz sentido na minha cabeça, pra isso já existem bookmarks. Eu usaria o recurso de marcar algum perfil como &#8220;hot&#8221; no sentido de legal, interessante, sempre com algo que quero ler. Mas marcar um twit como favorito? Nah.</p>
<p>É isso. De volta para a caverna dos nerds reclamões agora :-)</p>
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		<title>oficialização</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Oct 2009 13:36:36 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Ontem à noite fiz o tal pedido pra Dani, finalmente. Não que precisasse, moramos juntos faz algum tempo, namoramos há muitos anos etc e tal. Mas achei que como menina ela iria gostar, só pra oficializar tudo. Sem planos extras além dos que já temos, viver com ela me basta. Eu anotei esse trecho de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem à noite fiz o tal pedido pra <a href="http://twitter.com/danihabkost">Dani</a>, finalmente. Não que precisasse, moramos juntos faz algum tempo, namoramos há muitos anos etc e tal. Mas achei que como menina ela iria gostar, só pra oficializar tudo. Sem planos extras além dos que já temos, viver com ela me basta. Eu anotei esse trecho de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_Sert%C3%A3o:_Veredas">GS:V</a> no momento em que li (na altura em que a história está é uma parte muito bonita), pra usar um dia em um momento especial pra nós dois&#8230; mas acabei recitando ele de forma resumida pra ela ontem mesmo:</p>
<p><em>Minha Otacília, fina de recanto, em seu realce de mocidade, mimo de alecrim, a firme presença. Fui eu que primeiro encaminhei a ela os olhos. Molhei mão em mel, regrei minha língua. Aí, falei dos pássaros, que tratavam de seu voar antes do mormaço. [...] Principal que eu via eram as pombas. No bebedouro, pombas bando. E as verdadeiras, altas, cruzando do mato. – “Ah, já passaram mais de vinte verdadeiras&#8230;” – palavras de Otacília, que contava. Essa principiou a nossa conversa. Salvo uns risos e silêncios, a tão. Toda moça é mansa, é branca e delicada. Otacília era a mais.</p>
<p>Mas, na beira da alpendrada, tinha um canteirozinho de jardim, com escolha de poucas flores. Das que sobressaíam, era uma flor branca – que fosse caeté, pensei, e parecia um lírio – alteada e muito perfumosa. E essa flor é figurada, o senhor sabe? Morada em que tem moças, plantam dela em porta da casa-de-fazenda. De propósito plantam, para resposta e pergunta. Eu nem sabia. Indaguei o nome da flor. “Casa-comigo&#8230;” – Otacília baixinho me atendeu.</em></p>
<p>Claro que a Dani ficou com um sorriso de uma orelha até a outra, até hoje de manhã :-)</p>
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		<title>o causo do albergue</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Aug 2009 22:58:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>caio1982</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O causo abaixo estava marcado como rascunho há quase 1 ano, resolvi criar coragem e publicá-lo.
Aquele foi o primeiro albergue em que fiquei na vida, e possivelmente vou me lembrar dele sempre que me hospedar em um outro. Os belgas sabem fazer um lugar simples parecer bonito e ainda ser barato. Depois de algumas horas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>O causo abaixo estava marcado como rascunho há quase 1 ano, resolvi criar coragem e publicá-lo.</em></p>
<p>Aquele foi o primeiro albergue em que fiquei na vida, e possivelmente vou me lembrar dele sempre que me hospedar em um outro. Os belgas sabem fazer um lugar simples parecer bonito e ainda ser barato. Depois de algumas horas de viagem balançando em um trem, eu estava louco pra achar uma cama e descansar. Se possível com uma boa chuveirada antes, daquele tipo quente-arranca-pele, pra tirar a sujeira e me renovar. Eu estava realmente louco por uma, mas ao mesmo tempo minhas pálpebras estavam pesadas demais, pesadas, eu capotava de sono. Pesadas. Eu mal parava em pé. Naquele quarto, naquele albergue bastante simpático, eu iria dividir o espaço com outras três pessoas. Não que eu não tivesse reparado nelas quando cheguei, eu estava cansado demais pra isso e todo mundo entrava e saía com frequência, só fui conhecer os tipos tarde da noite, conforme cada um voltava da sua primeira noitada local.</p>
<p>Logo chegou um tal britânico, um tipo magrelo e branquíssimo, com um pomo-de-adão tão saltado que parecia que ele tinha engolido uma bola de tênis. Não sei se essa é a personalidade mais comum na Inglaterra, mas eu praticamente só ouvi sua voz uma ou duas vezes naquela semana, e ainda assim eram coisas como <em>g&#8217;day</em> ou <em>hello mait</em>. De resto&#8230; ele estava imensamente alegre em te conhecer? Um aceno de sobrancelha bastaria pra ele. Ele estava com infecção urinária e precisava de uma ambulância desesperadamente? <em>Claro</em>, ele devia pensar, <em>um aceno levantando esse meu queixo pontiagudo resolve</em>. Quando me acostumei com o jeito reservado dele e já estava quase dormindo, a porta foi aberta por uma silhueta que me assustou um bocado.</p>
<p>Não é fácil abrir os olhos às duas da manhã e ignorar que um contorno de quase 2 metros de altura, careca e forte como um touro, está carregando uma mochila nos ombros e diz, dirigindo-se a você, um <em>hellou!</em> com sotaque alemão. A mochila era só um pequeno detalhe, ela fazia o papel que uma bolsa da Hello Kitty faria nos ombros de um ciclope ridiculamente alto e musculoso. Aquela careca&#8230; não tinha como não pensar em neonazistas do noticiário, eu puxei a ponta do cobertor até quase o meu nariz e, que ironia, acenei com a sobrancelha no melhor estilo inglês, me borrando inteiro. Se naquela hora ele me falasse que o céu era cor-de-violeta, eu prontamente concordaria. Eu não resisti, fingi estar dormindo só pra ver aquela monstruosidade subir uma escadinha vertical até o segundo andar do beliche de madeira que havia no quarto. Tudo rangia, cada ripa de madeira gritava por sua mamãezinha. Era preciso ter uma certa fé no fabricante daquele beliche pra se dormir em paz no primeiro andar, mas o inglês parecia estar mais interessado em contar suas ovelhas. Foi então que, nessa mesma hora, aquela coisa surgiu.</p>
<p>Não me recordo em que hora exatamente tudo isso aconteceu, mas eu novamente perdi meu sono quando tudo já estava bastante escuro. Aquele escuro silencioso, especial, de quando se acorda de madrugada e a cidade inteira dorme, nada se mexe. Todos já haviam chegado, até o cara que iria dormir na cama ao lado da minha, as únicas individuais, privilégio de quem chega e bota a mochila primeiro sobre o colchão plastificado do albergue. De repente, <em>grrr orrwaah uhurrrrrggghhhh roooonnccc!</em> Se com o alemão a madeira do beliche já havia sofrido demais, com o ronco do cara ao meu lado provavelmente toda a estrutura de metal reforçado do prédio sofreu algum dano naquele momento. Eu tentei ignorar, afinal era só um ronquinho. Todo mundo ronca às vezes. <em>Grrr orrwaah uhurrrrrggghhhh roooonnccc</em> ele fez de novo. Não era só um ronco, havia repetição exata de cada fonema gutural que ele fazia, tinha ritmo. Aposto que era ensaiado.</p>
<p>Eu ficava me virando constantemente, tentando dormir assim mesmo. Certa hora da noite eu abri os olhos mais por instinto do que outra coisa, aquela passada de vista que se faz de vez em quando, bem displicente. Os olhos do tal alemão estavam vidrados em mim, eles brilhavam no escuro iguais olhos de gatos. Aquilo só podia significar duas coisas: ele estava me medindo pra ver se os pedaços cortados do meu corpo caberiam na mochilinha de criança dele ou ele simplesmente também não conseguia dormir com aquela barulheira. Isso tudo logo na primeira noite, só porque eu queria muito dormir em paz.</p>
<p>Algumas vezes de madrugada eu me cobria, virava, tentava abafar o som, mas não dava! Aquilo não parava de <em>grrr orrwaah uhurrrrrggghhhh roooonnccc</em>, e eu só pensava <em>não tenta falar comigo! não fala comigo, porra!</em> Ele já estava na minha cabeça, mal sabia eu que nos dias seguintes eu não conseguiria tirar seu ronco do pensamento. Eu iria ler alguma coisa no trono do banheiro e <em>grrr orrwaah uhurrrrrggghhhh roooonnccc</em>. Eu pedia uma porção de batata frita ao belga simpático que ficava na esquina e ele me respondia <em>grrr orrwaah uhurrrrrggghhhh roooonnccc</em> ao me dar o troco. Eu nunca tinha acordado antes com o ronco de alguém, até aquela semana.</p>
<p>Quando notei, já estava acordando às cinco horas com o sol na minha cara, com os olhos inchados sem dormir direito. Tendo viajado bastante até ali, já estava mais que na hora de tomar um belo banho, afinal. Todos os meus cantos estavam suados. Pessoas dariam a vida naquela hora pra eu ir pro chuveiro e não verem meu suor escorrer já velho. Eu já tinha minha própria pequena mata atlântica, imagine àrvores espaçadas, ambiente húmido e estável. Tempo depois vem uma torrente de água, lenta mas interrompível, escorrendo morro abaixo. As árvores não se molham, elas se lambuzam, é como mergulhar um ipê com tronco e tudo numa bacia de banha de porco. Era assim que as minhas dobras estavam naquela manhã. Eu já havia superado meu problema com os companheiros de quarto, agora estava na hora de resolver a sina dos viajantes: o fedor.</p>
<p>Como muitas pessoas, os meus melhores momentos de relaxamento são no banheiro. Talvez nem todo mundo admita isso em público, mas tente fazer um olhar inquiridor pra alguém na rua, numa fila, como se questionasse ela com <em>você também, fala a verdade!</em> e perceberá isso. Infelizmente não foi o caso no tal banheiro do tal quarto do tal albergue. Ele possuía dispositivos destinados a tortura dos visitantes. Era entrar no box esperando água quente e a porta pesada de vidro vinha lentamente encostar gelada nas suas costas. Você abria ela e ela se fechava novamente.</p>
<p>Isso não seria um problema caso o resto compensasse, mas pra ligar o chuveiro era necessário apertar constantemente um botão quadrado na parede, grande, parecido com um botão de descarga de privada. Cada vez que você soltava aquele botão a água parava de sair. Ok, vamos apertar de novo o tal botão&#8230; mas a maldita água voltava a sair gelada e demorava uns bons segundos até que esquentasse de novo! Imagine um pobre viajante com uma perna esticada, torta, segurando a porta do box que insistia em abrir, e com um braço esticado pressionando o botão do chuveiro o tempo todo.</p>
<p>Tentei de tudo pra criar um sistema que funcionasse, tentei empurrar o botão do chuveiro com o cotovelo e nada. Tentei até segurar o botão pressionado usando um lado da bunda, mas ali sempre sobrava um quadrado do tamanho do botão do chuveiro sem limpar, complicava um pouco a higiene. O botão era baixo demais pra algumas partes do corpo, tentei até usar em vão as minhas costelinhas! Tentei inclusive tomar banho numa perna só, enquanto a outra ficava dobrada pro joelho pressionar o maldito botão.</p>
<p>Bom, aquilo era o melhor que eu podia pagar mesmo. Quem se importaria de passar por uma situação dessas pagando quase nada? Alguém mais apertado financeiramente do que eu deveria achar tudo aquilo o sétimo céu. Quando você procura um chuveiro, desesperadamente, tudo o que você quer é entrar debaixo de um pouco de água quente, a água te faz um carinho e leva a sujeira embora, dá vontade de falar <em>me abraça chuveiro!</em> e não sair dali. Dá vontade de descansar debaixo da água quente por horas. Mas não, os malditos belgas construtores de albergues de tortura não iriam permitir que isso acontecesse. Com os olhos ensaboados eu dava murros na parede ao invés de acertar o botão do chuveiro, de raiva.</p>
<p>Certa vez saí do banho, enfim vencedor, me troquei e resolvi abrir a janela pra arejar um pouco o quarto. Era uma janela enorme, a maior que eu já vi na minha vida inteira. Era quase da altura da minha coxa até o teto, largura de quase uma pequena parede toda. A janela em si era uma tampa enorme de vidro grosso com uma borda fina de madeira, nem sei se dá pra chamar de janela mesmo, era uma peça inteiriça. Quem projetou esse tipo de janela provavelmente precisava passar móveis enormes por ela, aí dá pra imaginar. Simplesmente segui a usabilidade do momento e tentei mexer a trava da janela pra fora. De repente aquilo tudo ruiu e veio caindo pra cima de mim.</p>
<p>Me dei conta, então, que esse era mais um truque dos comediantes belgas: a janela abria ao contrário. A base dela era fixa, presa, ela não abria horizontalmente, abria de cima para baixo, pra que quando chovesse não entrasse água por ali. Se ela abrisse horizontalmente teria infiltração e em algum momento, de tão grande que ela era, alguém não a alcançaria pra fechar. Até meio genial eu diria, mas tudo o que eu conseguia pensar naquela hora era que tinha que segurar aquela tampa gigante de vidro, de qualquer maneira. Entrei num certo pânico ao pensar que o neonazista ou o monstro poderiam não gostar de ver aquilo se esborrachar no chão logo cedo de manhã, mas aprendi a usar a janela. Me senti um desbravador no final das contas.</p>
<p>Relembrando agora&#8230; na verdade o lugar era bastante agradável. Minha dieta se resumia a tomar coca-cola de uma máquina automática e comer batata frita na barraquinha da esquina. Me acostumei com os companheiros de quarto e fiz as pazes com aquele chuveiro temperamental. Tive uma excelente semana e aproveitei bastante, o quanto pude, arrependimento zero. O vento aparecia com frequência, o sol idem. Tudo no albergue era até bem limpo, certamente devo ter exagerado um pouco sobre o quarto. Talvez seja assim porque experiências imediatas são vistas pela gente como se ainda fôssemos crianças: tudo é grande, tudo é pesado, tudo está em alta-exposição e colorido demais. Tenho certeza que daqui alguns anos conseguirei parar de ter pesadelos com aqueles malditos belgas.</p>
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		<title>é sempre tinta preta e flor</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Jul 2009 00:04:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>caio1982</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Assim que voltamos pra casa após fazermos nossas primeiras tatuagens ano passado, eu e a Dani já começamos a brincar falando sobre pra quando seriam as próximas. Eu tinha uma idéia de fazer algum round knot estilo celta na coxa e a Dani queria porque queria lírios. Eu sosseguei e ela nunca achava um desenho [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Assim que voltamos pra casa após fazermos <a href="http://caio.ueberalles.net/log/2008/09/10/omg-tatuados-e-malvadoes/">nossas primeiras tatuagens ano passado</a>, eu e a Dani já começamos a brincar falando sobre pra quando seriam as próximas. Eu tinha uma idéia de fazer algum <a href="http://images.google.com/images?q=celtic+round+knot">round knot estilo celta</a> na coxa e a Dani queria porque queria lírios. Eu sosseguei e ela nunca achava um desenho bonito pra fazer no ombro&#8230; e foi indo, indo&#8230;</p>
<p>Pra variar, foi só a gente ir pra Praia Grande que ela voltou com o papinho furado de &#8220;ah, faz tempo já&#8221; e resolvemos fazer as novas tatuagens num sábado de chuva forte, não tinha nada melhor pra fazer mesmo :-) escolhi uma árvore celta estilizada que vi uma vez numa pulseira e que lembra um pouco a Yggdrasil <a href="http://twitter.com/caio1982/status/2363902405">que já tava namorando fazia um tempo</a>, a Dani finalmente achou o lírio dela num dos álbuns do estúdio de tatuagem. Aí fizemos, fodeu-se. <a href="http://caio.ueberalles.net/tattoo/">As fotos</a> não estão muito boas e as cores da minha antiga e da nova tatuagem é diferença da idade delas mesmo.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/07/celtic_tree_tattoo.png" alt="Celtic Tree Tattoo" /><br />
Meus cachorros celtas do ano passado na esquerda e a árvore estilizada na panturrilha direita.</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/07/dani_lirios_tattoo.png" alt="Tattoo de Lírios da Danielle" /><br />
Ela só queria um lírio com ramos subindo o tornozelo, mas resolveu fazer dois pra ficar mais cheio.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>caeiro mais mais</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Jun 2009 00:48:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>caio1982</dc:creator>
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		<category><![CDATA[poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu provavelmente serei um dos que irão entrar de férias mais tarde pra poder fazer as finais sobre modernismo português no curso de Letras, mas o mestre Caeiro é bom demais e isso porque eu acho poesia um saco sem fundo e eu humildemente admito que não entendo nada de poemas. Mas ele ganhou mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu provavelmente serei um dos que irão entrar de férias mais tarde pra poder fazer as finais sobre modernismo português <a href="http://caio.ueberalles.net/log/2009/01/25/letras-linguistica-ingles/">no curso de Letras</a>, mas <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Alberto_Caeiro">o mestre Caeiro é bom demais</a> e isso porque eu acho poesia um saco sem fundo e eu humildemente admito que não entendo nada de poemas. Mas ele ganhou mais um fã, eu.</p>
<p><strong>I</strong><br />
<em>Eu nunca guardei rebanhos,<br />
Mas é como se os guardasse.<br />
Minha alma é como um pastor,<br />
Conhece o vento e o sol<br />
E anda pela mão das Estações<br />
A seguir e a olhar.<br />
Toda a paz da Natureza sem gente<br />
Vem sentar-se a meu lado.<br />
Mas eu fico triste como um pôr de sol<br />
Para a nossa imaginação,<br />
Quando esfria no fundo da planície<br />
E se sente a noite entrada<br />
Como uma <a href="http://twitter.com/bani">borboleta</a> pela janela.</p>
<p>Mas a minha tristeza é sossego<br />
Porque é natural e justa<br />
E é o que deve estar na alma<br />
Quando já pensa que existe<br />
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.</p>
<p>[...]</p>
<p>Pensar incomoda como andar à chuva<br />
Quando o vento cresce e parece que chove mais.</p>
<p>Não tenho ambições nem desejos.<br />
Ser poeta não é uma ambição minha.<br />
É a minha maneira de estar sozinho.</p>
<p>[...]</p>
<p>Quando me sento a escrever versos<br />
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,<br />
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,<br />
Sinto um cajado nas mãos<br />
E vejo um recorte de mim<br />
No cimo dum outeiro,<br />
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias<br />
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,<br />
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz<br />
E quer fingir que compreende.</p>
<p>Saúdo todos os que me lerem,<br />
Tirando-lhes o chapéu largo<br />
Quando me vêem à minha porta<br />
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.<br />
Saúdo-os e desejo-lhes sol,<br />
E chuva, quando a chuva é precisa,<br />
E que as suas casas tenham<br />
Ao pé duma janela aberta<br />
Uma cadeira predilecta<br />
Onde se sentem, lendo os meus versos.<br />
E ao lerem os meus versos pensem<br />
Que sou qualquer cousa natural –<br />
Por exemplo, a árvore antiga<br />
À sombra da qual quando crianças<br />
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,<br />
E limpavam o suor da testa quente<br />
Com a manga do bibe riscado.<br />
</em><br />
<strong>V</strong><br />
<em>Há metafísica bastante em não pensar em nada.</p>
<p>O que penso eu do mundo?<br />
Sei lá o que penso do mundo!<br />
Se eu adoecesse pensaria nisso. </p>
<p>Que ideia tenho eu das cousas?<br />
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?<br />
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma<br />
E sobre a criação do Mundo?<br />
Não sei.  Para mim pensar nisso é fechar os olhos<br />
E não pensar. É correr as cortinas<br />
Da minha janela (mas ela não tem cortinas). </p>
<p>[...]</p>
<p>Metafísica?  Que metafísica têm aquelas árvores?<br />
A de serem verdes e copadas e de terem ramos<br />
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,<br />
A nós, que não sabemos dar por elas.<br />
Mas que melhor metafísica que a delas,<br />
Que é a de não saber para que vivem<br />
Nem saber que o não sabem? </p>
<p>[...] </p>
<p>Não acredito em Deus porque nunca o vi.<br />
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,<br />
Sem dúvida que viria falar comigo<br />
E entraria pela minha porta dentro<br />
Dizendo-me, Aqui estou! </p>
<p>[...]</p>
<p>Mas se Deus é as flores e as árvores<br />
E os montes e sol e o luar,<br />
Então acredito nele,<br />
Então acredito nele a toda a hora,<br />
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,<br />
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. </p>
<p>Mas se Deus é as árvores e as flores<br />
E os montes e o luar e o sol,<br />
Para que lhe chamo eu Deus?<br />
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;<br />
Porque, se ele se fez, para eu o ver,<br />
Sol e luar e flores e árvores e montes,<br />
Se ele me aparece como sendo árvores e montes<br />
E luar e sol e flores,<br />
É que ele quer que eu o conheça<br />
Como árvores e montes e flores e luar e sol.   </p>
<p>E por isso eu obedeço-lhe,<br />
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).<br />
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,<br />
Como quem abre os olhos e vê,<br />
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,<br />
E amo-o sem pensar nele,<br />
E penso-o vendo e ouvindo,<br />
E ando com ele a toda a hora.<br />
</em><br />
<strong>VIII</strong><br />
<em>Num meio-dia de fim de primavera<br />
Tive um sonho como uma fotografia.<br />
Vi Jesus Cristo descer à terra.</p>
<p>Veio pela encosta de um monte<br />
Tornado outra vez menino,<br />
A correr e a rolar-se pela erva<br />
E a arrancar flores para as deitar fora<br />
E a rir de modo a ouvir-se de longe.</p>
<p>Tinha fugido do céu.<br />
Era nosso de mais para fingir<br />
De segunda pessoa da trindade.<br />
No céu era tudo falso, tudo em desacordo<br />
Com flores e árvores e pedras.<br />
No céu tinha que estar sempre sério<br />
E de vez em quando de se tornar outra vez homem<br />
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer<br />
Com uma coroa toda à roda de espinhos<br />
E os pés espetados por um prego com cabeça,<br />
E até com um trapo à roda da cintura<br />
Como os pretos nas ilustrações.<br />
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe<br />
Como as outras crianças.<br />
O seu pai era duas pessoas –<br />
Um velho chamado José, que era carpinteiro,<br />
E que não era pai dele;<br />
E o outro pai era uma pomba estúpida,<br />
A única pomba feia do mundo<br />
Porque não era do mundo nem era pomba.<br />
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.<br />
Não era mulher: era uma mala<br />
Em que ele tinha vindo do céu.<br />
E queriam que ele, que só nascera da mãe,<br />
E nunca tivera pai para amar com respeito,<br />
Pregasse a bondade e a justiça!</p>
<p>Um dia que Deus estava a dormir<br />
E o Espírito Santo andava a voar,<br />
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.<br />
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.<br />
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.<br />
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz<br />
E deixou-o pregado na cruz que há no céu<br />
E serve de modelo às outras.<br />
Depois fugiu para o sol<br />
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.</p>
<p>Hoje vive na minha aldeia comigo.<br />
É uma criança bonita de riso e natural.<br />
Limpa o nariz ao braço direito,<br />
Chapinha nas poças de água,<br />
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.<br />
Atira pedras aos burros,<br />
Rouba a fruta dos pomares<br />
E foge a chorar e a gritar dos cães.<br />
E, porque sabe que elas não gostam<br />
E que toda a gente acha graça,<br />
Corre atrás das raparigas<br />
Que vão em ranchos pelas estradas<br />
Com as bilhas às cabeças<br />
E levanta-lhes as saias.</p>
<p>[...]</p>
<p>Diz-me muito mal de Deus.<br />
Diz que ele é um velho estúpido e doente,<br />
Sempre a escarrar no chão<br />
E a dizer indecências.<br />
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.<br />
E o Espírito Santo coça-se com o bico<br />
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.<br />
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.<br />
Diz-me que Deus não percebe nada<br />
Das coisas que criou –<br />
&#8220;Se é que ele as criou, do que duvido&#8221; –.<br />
&#8220;Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,<br />
Mas os seres não cantam nada.<br />
Se cantassem seriam cantores.<br />
Os seres existem e mais nada,<br />
E por isso se chamam seres&#8221;.</p>
<p>E depois, cansado de dizer mal de Deus,<br />
O Menino Jesus adormece nos meus braços<br />
E eu levo-o ao colo para casa.</p>
<p>[...]</p>
<p>Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.<br />
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.<br />
Ele é o humano que é natural,<br />
Ele é o divino que sorri e que brinca.<br />
E por isso é que eu sei com toda a certeza<br />
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.</p>
<p>[...]</p>
<p>Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas<br />
No degrau da porta de casa,<br />
Graves como convém a um deus e a um poeta,<br />
E como se cada pedra<br />
Fosse todo um universo<br />
E fosse por isso um grande perigo para ela<br />
Deixá-la cair no chão.</p>
<p>Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens<br />
E ele sorri, porque tudo é incrível.<br />
Ri dos reis e dos que não são reis,<br />
E tem pena de ouvir falar das guerras,<br />
E dos comércios, e dos navios<br />
Que ficam fumo no ar dos altos mares.<br />
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade<br />
Que uma flor tem ao florescer<br />
E que anda com a luz do sol<br />
A variar os montes e os vales<br />
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.</p>
<p>[...]</p>
<p>Esta é a história do meu Menino Jesus.<br />
Porque razão que se perceba<br />
Não há-de ser ela mais verdadeira<br />
Que tudo quanto os filósofos pensam<br />
E tudo quanto as religiões ensinam?</em></p>
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		<title>esquerdismo de cabresto</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Jun 2009 18:37:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>caio1982</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ontem eu brinquei de discutir com o Felipe via IRC, como sempre fazemos. Pra variar o assunto era esquerdismo e como ele é sempre pró-minorias, não importa se elas estão erradas. Se é minoria tá sempre com a razão. Isso me lembrou da minha frequente irritação quando penso &#8220;esquerdismo&#8221; e tenho que falar &#8220;esquerdismo&#8221; pra [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem eu <a href="http://twitter.com/caio1982/status/2107533078">brinquei de discutir</a> com o <a href="http://felipearruda.com/blog/">Felipe</a> via IRC, <a href="http://twitter.com/caio1982/status/2107630124">como sempre fazemos</a>. Pra variar o assunto era esquerdismo e como ele é sempre pró-minorias, não importa se elas estão erradas. Se é minoria tá sempre com a razão. Isso me lembrou da minha frequente irritação quando penso &#8220;esquerdismo&#8221; e tenho que falar &#8220;esquerdismo&#8221; pra alguém. Eu digo um coisa querendo dizer outra, pra mim são conceitos diferentes. Enfim, isso tudo é pra dizer que não existe esquerdismo no Brasil. Fato óbvio, não existe. Não existe, há pelo menos 25 anos.</p>
<p>Tudo começa quando se ainda é criança, bem menino e bem menina. É difícil achar alguém que tenha estudado em escolas públicas e que não tenha escutado algum professor reclamar da vida, dizer algo sobre sindicatos e como professores são explorados e tudo o mais. Eu lembro disso. Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau Professor Laudelino Fernandes dos Santos. Professora Shirlei. História. Toda semana eu lembrava de ela falando algo sobre a CUT e o PT, lembro dela ter dado aula com camiseta do PT uma vez. Num dado momento eu passei a estranhar isso (agradecendo o fato de meu cérebro ter funcionado bem pra crítica desde cedo) quando vi que ela não dava aula, ela só reclamava. Ela não se esforçava pra ser uma boa professora, uma boa mestre, ela queria ser uma boa assalariada e uma boa coitada. Talvez o fato de eu ser muito bem instruído em história hoje se deva ao fato que tive que estudar por conta própria, já que se dependesse dos meus professores, como ela, eu seria uma porta.</p>
<p>Isso pra mim mostra claramente, pensando na massa enorme de alunos de uma escola estadual, que professores engajados politicamente, desde cedo, conseguem criar padrões mentais de pensamentos nos alunos. Não estou dizendo que é manipulação, estou dizendo que por passar o ponto de vista ideológico deles, desde muito cedo pra crianças, acaba-se matando o cérebro de alguns alunos por inanição. Falta de nutrientes críticos. Pode reclamar disso, mas pense numa realidade alternativa onde a professora não usa camiseta do PT na sala e sim uma camiseta &#8220;white power&#8221; ou &#8220;homossexualismo é doença&#8221; ou &#8220;deus é fiel&#8221; e entenderão o absurdo dessa lavagem cerebral e por fim entenderão como esquerdismo pode ser um círculo vicioso.</p>
<p>Quando entrei na escola técnica, em SP mesmo (do Centro Paula Souza, unidade Adolpho Berezin), eu estava meio que em cima do muro ainda. Eu, junto com o Frederico (FSV, futuro juiz federal e quem sabe presidente da república) e o Rudimar (eterno Demônio d&#8217;O Auto da Barca do Inferno), costumávamos ler os jornais que a escola ganhava, todo dia, nos intervalos. Gostávamos de política, às vezes até brigávamos. Rudimar era mais esquerdista, idealista. Fred era mais pragmático, e chegava a ser meio tucano naquela época. Eu não sei o que eu era, eu só sabia que <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2009/04/ler-ou-nao-ler/">tinha algo de podre no reino da Dinamarca</a>. Éramos radicaizinhos, anti-sistema, eu andando com camisetas sujas e ouvindo Bad Religion e <a href="http://www.jfk-assassination.de/images/z335.gif">Dead Kennedys</a>.</p>
<p>Naquela época resolvemos criar o Grêmio Estudantil da escola técnica, não havia um até então. Criamos o grêmio e foi importante na época, os alunos pareciam participar, ainda que pra gente aquilo tudo fosse só uma brincadeira do tipo &#8220;vamos ver onde vai dar&#8221; e &#8220;assim poderemos bater em quem manda&#8221;. Lembro que colávamos cartazes anti-diretoria, que obrigava uniforme na escola, e chegamos até a procurar o Ministério Público pra denunciar a diretora uma vez. Isso foi na época em que eu aprendi o que significava o termo &#8220;massa de manobra&#8221;. Foi quando surgiu um boato que o governador, Mário Covas, queria acabar com as escolas técnicas. O nosso Grêmio Estudantil havia acabado de se filiar a UNE e fomos pra uma passeta subindo a Brigadeiro Luis Antônio até a Avenida Paulista. A idéia era acuar o governador e fazê-lo desistir da idéia. Chegando lá percebi que éramos só um grupo sem cérebro gritando motes esquerdistas como &#8220;fora já, fora já daqui, o FHC e o FMI&#8221; enquanto uns levantavam bandeiras da CUT, PT, MST, PSTU e outros grupos sem noção. Éramos peões num jogo de xadrez maior. Bom, no fim das contas estávamos sendo esquerdistas mesmo: burros, que não pensam, só seguem.</p>
<p>Uma pequena pausa dos nossos patrocinadores: <a href="http://www.boston.com/bigpicture/2009/06/remembering_tiananmen_20_years.html">a imagem abaixo foi tirada na greve e nas rebeliões que englobam o dia do Massacre na Praça da Paz Celestial, em 1989 na China</a>. Eu achei engraçadíssimo um manifestante jovem, na China comunista e fechada, censora, fundamentalmente esquerdista, vestindo uma camiseta Paz e Amor e tênis da Nike. Um tênis da Nike, que esquerdista fajuto diriam alguns. Esse chinês <a href="http://www.youtube.com/watch?v=Mc0e8UD_ex8">traiu o movimento, véi!</a></p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/06/comunista_de_nike.jpg" alt="Comunista de Nike" /></p>
<p>Eu jamais poderei julgar o cara da foto, ele estava numa realidade sociopolítica bastante anormal em relação a nossa, tempos passados. Só me é curioso o fato disso lembrar aqueles ditos esquerdistas que tem conforto em casa, andam de carro poluindo tudo por aí, tem camiseta do Che etc e tal e que não vivem o que pregam. É a versão politizada do punk de boutique, o esquerdista de fachada.</p>
<p>Bom&#8230; foi por aí, então, que começou o foda-se. Ler 1984, Revolução dos Bichos, Admirável Mundo Novo etc foi iluminador nessa época. Nosso Grêmio Estudantil não se chamava Monstequieu à toa. Do Espírito das Leis está aqui na minha estante. Foi nesse instante que eu comecei ligar diretamente o fator educação como sendo determinante no que uma pessoa se transformará: esquerdista ou não. E rotulo somente esquerdistas por um motivo quase biológico que explico mais pra frente. O importante é lembrar disso: pessoas com instrução e educação dificilmente se tornam esquerdistas no sentido que estou deixando implícito até aqui. Não é se formar, ter mestrado etc, é ter cultura, senso de mundo e realidade. Educação abrangente, não programação educacional baseada num maniqueísmo estúpido, o-bem-vence-o-mal. Porque se estudar numa boa escola fosse só um quesito superficial, qualquer playboy teria que ser obrigatoriamente uma pessoa inteligente. Infelizmente não é o que se percebe, mesmo porque playboys costumam ser a maioria em grupetes esquerdistas que tentam salvar o mundo do dinheiro sujo dos papais e mamães deles.</p>
<p>Eis, veja só, que isso me lembra os meus pais, meus pais que já fizeram greves de bancários e diz a lenda já foram filiados ao Partido Comunista. Isso me lembra mais especificamente o meu pai, que sempre detestou a influência do dinheiro em tudo. Tenho certeza que, se pudesse, meu pai queimaria todo o dinheiro do planeta. Não porque ele acha ruim uma nota de 20, mas porque ele é naturalmente cansado dos efeitos negativos do dinheiro: brigas entre irmãos, discussões em noite de natal por causa de cartão de crédito, salário que não banca um parque de diversões pros filhos e coisas assim. Tenho orgulho do meu pai ter me ensinado o que ensinou, mas não porque eu concordo com ele, sim porque ele me mostrou o outro lado da moeda. Meus pais me deram ferramentas críticas, e que bom que cada um deles acreditava numa coisa totalmente oposta a que o outro acreditava. Quando eu e a Dani comentamos dos <a href="http://caio.ueberalles.net/log/2008/03/09/recordacoes-manhattianas/">nossos planos de ir pros EUA nas férias, fazer um curso</a>, eu lembro da cara de &#8220;putz&#8221; do meu pai. Ele nunca gostou de americanos, o esteriótipo do filme Independence Day mesmo. Novamente, foi bom ver alguém radical quanto a isso dentro da minha casa. Me mostrou como isso é idiota e infantil.</p>
<p>Hoje, <a href="http://caio.ueberalles.net/log/2009/01/25/letras-linguistica-ingles/">estudando na Reitoria da UFPR</a>, antro de ditos esquerdistas, eu só tenho mais raiva dessa corrente que tenta anular o pensamento crítico verdadeiro. Os que confundem crítica com perseguição, os censores. Os que enrolam baseados no elevador e batucam maracatu pra qualquer coisa enquanto verdadeiros alunos fazem provas no décimo andar do prédio. Entendeu o problema? Eles dizem que estão lutando por um mundo melhor, com camiseta do Che, enquanto outros tentam estudar. Estudar. Se você estuda você é reaça agora. No curso de Economia da Dani sempre fazem a piada mor de que todo calouro entra esquerdista e sai de direita, o motivo ainda estou pra descobrir mas suspeito que tenha a ver com&#8230; educação crítica e instrução. Sim! Estou dizendo, sim, que esquerdistas são burros. São cobras cegas, vendados pro que lhes é diferente, oposto. Se você não está conosco então está contra nós. E ainda se vê <a href="http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?origin=is&#038;uid=2954192558110196722">gente em Economia desfilando com uma livraço do Mankiw debaixo do braço dizendo ser marxista</a>, em pleno terceiro ano, em 2009. Isso meio que deixa um cheiro de naftalina, máquina do tempo.</p>
<p>Dica: tocar maracatu, fumar maconha nos corredores da faculdade, não assistir aula e só colar cartazes da Vila Campesina nas paredes não resolve problemas do mundo. Se educar de verdade sim. Ou então viver o que prega, é simples. Quero ver dormir no chão de terra gelada junto com camponeses, quero ver levar sopapo da polícia, desafio-os a fazer sopão pra sem teto na madrugada, quero ver pedirem demissão e chamar o ex-chefe de senhor do engenho, rasgando o holerite na frente dele.</p>
<p>É tudo muito bonito, as razões que levam alguém a se dizer esquerdista. Mas brigar com alguém por dizer Linux ao invés de GNU/Linux enquanto se usa camiseta &#8220;sou contra rótulos&#8221; e somente se preocupar com minorias descuidadas e sem rumo não é ser esquerdista. Muitos amigos meus gostam desse jeito retrô de pensar, de não ver o outro lado da moeda, afinal se fomos explorados por tanto tempo agora é a nossa vez de explorar. E isso, enfim, me levou a questionar: eles são esquerdistas mesmo? Duvido. Desde a tal época do Grêmio Estudantil eu me via muito mais como esquerdista do que aqueles que diziam o ser. Aqui, finalmente, entra o Political Compass.</p>
<p>Eu guardei até hoje <a href="http://caio.ueberalles.net/wip/politicalcompass.org_caiobegotti.png">o meu resultado do teste do Political Compass que eu fiz no começo de 2004</a>. Cinco anos se passaram e tentei refazer o teste e de quebra fiz alguns outros &#8220;parecidos&#8221; pra ter alguma contra prova. O resultado? Seguem todos agrupados:</p>
<p><img src="http://caio.ueberalles.net/log/wp-content/uploads/2009/06/politicalcompassorg_caiobegotti.png" alt="Meu resultado do Political Compass e outros testes" /></p>
<p><a href="http://politicalcompass.org/test">Eu fiz o teste do Political Compass</a> novamente, ontem à noite, e resolvi fazer <a href="http://www.goldengiven.net/polimatrix/thetest.php">o do Political Matrix</a> também, por serem bastante parecidos. Fiz o <a href="http://www.theadvocates.org/quizp/index.html">World&#8217;s Smallest Political Quiz</a> do Advocates for Self-Government e o <a href="http://www.moral-politics.com/">Moral Politics Test</a> por fim. O teste do Political Compass é de longe o mais completo, é antigo e é atualizado com novos dados frequentemente, os outros só recomendo por curiosidade, já o do Political Compass eu sugiro que corra pra fazer porque é decente e abrangente. No gráfico, o Political Compass está em azul, em roxo é o Political Matrix, em verde o World’s Smallest Political Quiz e em amarelo é o Moral Politics Test.</p>
<p>O que eu queria provar pra mim mesmo era que eu sou muito mais &#8220;esquerdista&#8221; (agora com aspas pra diferenciar do rótulo que falei até aqui) do que muitas pessoas que eu conheço. Eu adoraria, sério, ver os gráficos de muitos amigos meus que se encaixam no rótulo que tanto adoram. Segundo o gráfico que gerei acima, a partir de todos os resultados, eu de fato sou esquerdista, mas por que diabos sou diferente dessas pessoas? Sei que tá ficando chato, mas&#8230; é educação. Isso explicaria o fato de alguns esquerdistas caírem nesse gráfico mais pra parte do autoritarismo, ou mais pra direita até, por respostas de cunho moral no teste. Eu mesmo conheço vários esquerdistas super conservadores moralmente falando, fascistóides que brincam de revolução num mundo onde isso não cabe mais.</p>
<p>Cheguei finalmente a conclusão, que pode parecer até bastante óbvia eu admito, que ser esquerdista ou não, nada tem a ver com dinheiro, nada tem a ver com gostar de minorias. No Brasil esquerdismo não está ligado a fatores econômicos, absolutamente. Tem a ver como você vê o mundo a sua volta. Ver tudo em preto-e-branco é fácil, qualquer criança que vê bandido e mocinho na TV aos 7 anos sabe disso. Difícil mesmo é ver o outro lado da moeda, é se olhar no espelho e se questionar a todo momento se você está realmente certo. Já até mesmo cogitei a possibilidade de existirem cérebros politicamente diferentes, assimo como existem os artistas e os engenheiros, os avoados e os nerds, os de esquerda e os não de esquerda. Mas sinceramente eu não sei se isso pode ser fundamentado de verdade&#8230;</p>
<p>Eu não sou anti-esquerdismo porque dou a bunda pra megaempresários do aço ou multinacionais, porque sou classe média e gosto de dinheiro pra realizar meus sonhos. Eu não ligo pra isso, eu não ligo pra quem você vota, eu não ligo em que você acredita, eu não ligo se você se veste de vermelho ou de azul, não dou a mínima se você divide o pão ou se come tudo sozinho. </p>
<p>Eu sou anti-esquerdismo atualmente porque detesto gente burra, só isso.</p>
<p><strong>UPDATE:</strong> e não é que deixei passar <a href="http://caderno.josesaramago.org/2009/06/09/paradoxal/">um excelente parágrafo recente do Saramago sobre isso</a>?</p>
<p><em>&#8220;Outras vezes me perguntei por onde andava a esquerda, e hoje tenho a resposta: por aí algures, humilhada, a contar os míseros votos recolhidos e à procura de explicações por os ver tão poucos. O que chegou a ser, no passado, uma das maiores esperanças da humanidade, capaz de mobilizar vontades pelo simples apelo ao que de melhor caracterizava a espécie humana, e que veio criando, com a passagem do tempo, as mudanças sociais e os erros próprios, as suas próprias perversões internas, cada dia mais longe das promessas primeiras, assemelhando-se mais e mais aos adversários e aos inimigos, como se essa fosse a única maneira de se fazer aceitar, acabou por cair em meras simulações, nas quais conceitos doutras épocas chegaram a ser utilizados para justificar actos que esses mesmos conceitos haviam combatido. [...] Não é possível votar na esquerda se a esquerda deixou de existir&#8221;</em></p>
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		<title>the understudy traduzido</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Apr 2009 20:38:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>caio1982</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Essa é a minha tradução-em-horários-livres do conto, ou crônica, The Understudy do David Sedaris. Falei dele no último post e digitei a íntegra do texto já que não havia online e acessível de graça. Sinceramente não sei o que traduzir de The Understudy, o título, seria algo como A Substituta: O Breve Reinado de Terror [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Essa é a minha tradução-em-horários-livres do conto, ou crônica, <a href="http://caio.ueberalles.net/log/2009/03/07/the-understudy-original/">The Understudy do David Sedaris. Falei dele no último post e digitei a íntegra do texto já que não havia online e acessível de graça</a>. Sinceramente não sei o que traduzir de The Understudy, o título, seria algo como A Substituta: O Breve Reinado de Terror De Uma Babá. Sempre tem algum trecho traduzido que merece comentário, mas pra não alongar demais eu vou botá-los todos na parte de comentários do post caso alguém pergunte sobre pontos específicos um dia. Pontos como o porquê de mudar a estrutura de alguns parágrafos ou a forma de citar frases de personagens, por exemplo. Meu fiel revisor oficial foi o <a href="http://www.felipearruda.com/blog/">Felipe</a>, e o James Martínez ajudou com alguns termos que estavam travando a tradução, ele é um americano que tá aprendendo português via IRC. Enfim, senta que lá vem a história&#8230;</p>
<p><strong>Na</strong> primavera de 1967 meus pais viajaram pra fora da cidade em um fim de semana, e deixaram minhas quatro irmãs e eu na companhia de uma mulher chamada Sra. Byrd, uma senhora negra que trabalhava como empregada doméstica pra um dos nossos vizinhos. Ela chegou em casa numa sexta-feira à tarde e, depois de levar a mala dela pro quarto dos meus pais, eu fiz um pequeno tour pela casa junto com ela, do jeito que eu imaginava que faziam em hotéis: &#8220;essa é a sua televisão, essa varanda é só sua e aqui é o seu banheiro &#8211; só seu, de ninguém mais&#8221;.</p>
<p>A Sra. Byrd colocou as mãos na bochecha: &#8220;alguém me belisca, eu acho que vou desmaiar&#8221;.</p>
<p>Ela se derreteu novamente quando eu abri uma porta do guarda-roupa e falei que tínhamos um closet pros casacos etc e tal. &#8220;Tem dois desse ali na parede, você pode usar o da direita&#8221;.</p>
<p>Isso devia ser, eu imaginava, um sonho pra ela: o <em>seu</em> telefone, a <em>sua</em> camona, o <em>seu</em> chuveiro com box de vidro. Tudo o que você precisava fazer era deixar tudo um pouquinho mais limpo do que quando encontrou.</p>
<p>Alguns meses depois os meus pais viajaram de novo e nos deixaram com a Sra. Robbins, que também era negra e, como a Sra. Byrd, não se importava que eu me visse como um pequeno milagreiro. Noite vinha e eu quase a via de joelhos no carpete, esfregando a colcha da cama dos meus pais com a testa. &#8220;Obrigada, senhor, por essa gente branca maravilhosa e tudo que eles me deram nesse grande fim de semana&#8221;.</p>
<p>Com uma babá adolescente qualquer você zoa, pula na frente dela quando ela está saindo do banheiro, esse tipo de coisa, mas com a Sra. Robbins e a Sra. Byrd nós nos comportávamos e as respeitávamos, totalmente o contrário do que éramos de verdade. Isso tudo tornava a escapada de fim de semana dos nossos pais uma escapada pra gente também &#8211; afinal, o que é uma folga dessas senão uma chance de fazer algo diferente?</p>
<p>No comecinho de setembro daquele mesmo ano os meus pais foram com a tia Joyce e o tio Dick para as Ilhas Virgens, por uma semana. Nem a Sra. Byrd ou a Sra. Robbins estavam disponíveis pra tomar conta da gente, até que minha mãe encontrou uma pessoa chamada Sra. Peacock. Exatamente <em>onde</em> ela encontrou aquela mulher seria motivo de especulações pelo resto das nossas infâncias.</p>
<p>&#8220;A mamãe já esteve numa prisão feminina alguma vez?&#8221;, minha irmã Amy perguntaria. &#8220;Talvez numa prisão <em>masculina</em>&#8220;, a Gretchen iria responder, como se ela jamais tivesse se convencido que a Sra. Peacock era de fato uma mulher. A parte do &#8220;Sra.&#8221; era mentira mesmo, isso a gente sabia.</p>
<p>&#8220;Ela <u>diz</u> que já foi casada só pras pessoas confiarem nela!!!!&#8221;. Esse era um dos rabiscos que a gente tinha num caderninho durante o tempo que ela cuidou de nós. Havia páginas disso, tudo escrito numa correria desesperada, com palavras sublinhadas e um monte de exclamações. É o tipo de coisa que você faz quando seu navio está afundando, aquilo que acaba arrepiando os seus entes vivos. &#8220;Se a gente soubesse&#8230;&#8221; diriam eles. &#8220;Oh, senhor, se a gente soubesse!&#8221;.</p>
<p>Mas o que é que eles iriam querer saber? Uma adolescente se oferece pra cuidar dos seus filhos por uma noite e, naturalmente, você conversa com os pais dela sobre isso, dá uma xeretada. Pra uma mulher crescida você não pede referências, especialmente se essa mulher é branca.</p>
<p>A nossa mãe jamais se lembrou de onde ela tirou a Sra. Peacock. &#8220;Em um anúncio de jornal&#8221;, ela diz, ou &#8220;sei lá, ela deve ter trabalhado pra alguém do clube&#8221;.</p>
<p>Mas quem no clube contraria tal criatura? Pra se tornar um membro do clube você precisava atender certas exigências, uma delas sendo que você não podia conhecer pessoas como a Sra. Peacock. Você não vai nos mesmos lugares onde ela come ou reza, tampouco mostra pra pessoas assim o caminho pra sua casa.</p>
<p><strong>Eu</strong> senti cheiro de problemas no momento em que o carro dela estacionou, um pedaço de sucata dirigido por um sujeito sem camisa. Ele parecia velho o suficiente pra ter acabado de fazer sua primeira barba e ficou sentado enquanto a coisa atrás dele abria a porta e saía pra fora do carro. Essa era a Sra. Peacock. A primeira coisa que reparei nela foi o cabelo cor de margarina que caia ondulado até a metade das suas costas. É o tipo de cabelo que você imagina numa sereia, totalmente brega pra uma sessentona que não era somente pesada mas gorda mesmo, se movendo como se cada passo fosse o último da sua vida.</p>
<p>Eu gritei &#8220;mãe!&#8221; e, na mesma hora que minha mãe botou o pé pra fora, o cara sem camisa correu da entrada da garagem e fugiu rua abaixo.</p>
<p>&#8220;Era o seu marido?&#8221; a minha mãe perguntou, a Sra. Peacock olhou para onde o carro estava parado.</p>
<p>&#8220;Nem, era só o Keith&#8221;, ela respondeu.</p>
<p>Não &#8220;o meu sobrinho Keith&#8221; ou &#8220;Keith, do posto de gasolina, procurado pela polícia em cinco estados&#8221;, simplesmente &#8220;só o Keith&#8221;, como se a gente tivesse lido o roteiro da vida dela e devêssemos lembrar de todos os personagens.</p>
<p>Ela acabaria fazendo isso várias vezes durante aquela semana, e eu a odiaria por isso. Alguém ligava pra casa e após desligar o telefone ela falava &#8220;não quero mais saber do Eugene&#8221; ou &#8220;falei pra Vicky não me ligar mais aqui&#8221;.</p>
<p>&#8220;Quem é Eugene? O que a Vicky fez de tão ruim?&#8221;, perguntávamos, e ela dizia pra gente se meter só com as nossas vidas.</p>
<p>Ela era assim&#8230; não que se achasse melhor que a gente, mas ela já se achava igual a nós e isso não era verdade, mesmo. Devia ver só a mala dela, amarrada com uma corda! Quando ela resmugava, não dava pra entender nada. Uma pessoa bem educada expressaria alguma admiração ao fazer um tour pela casa, mas além de perguntar algumas coisas sobre o nosso fogão a Sra. Peacock praticamente não falou nada, e ainda deu de ombros quando mostramos o banheiro da suíte, que tem a palavra &#8220;suíte&#8221; escrita nele e foi feito pra fazer você se sentir poderoso e sortudo por estar ali vivo. A cara dela parecia querer dizer <em>&#8220;já vi melhores&#8221;</em>, mas eu jamais acreditaria nisso.</p>
<p>Nas duas primeiras vezes que meus pais saíram de férias, minha irmã e eu acompanhamos eles até a porta e dissemos que sentiríamos muita saudade. Era só uma ceninha, feita pra gente parecer elegante e ingleses, mas dessa vez a gente realmente estava falando sério. &#8220;Parem de manha&#8221;, nossa mãe falou, &#8220;é só por uma semana&#8221;. Pra Sra. Peacock ela deu aquele olhar de &#8220;crianças, o que é que se pode fazer?&#8221;.</p>
<p>Existe um olhar correspondente que se traduz em &#8220;eu que o diga&#8221;, mas a Sra. Peacock nem o devolveu, ela sabia exatamente o que se poderia fazer: nos escravizar. Não tem outra palavra pra isso. Uma hora depois dos meus pais saírem ela já estava deitada de bruços na cama, vestida só de camisola. Da cor da sua pele, cor de meia-calça, incolor praticamente, que ficava ainda pior com o seu cabelo aloirado. Imagine também as suas pernas de fora, joelhos cavados, ambas riscadas por veias roxas nervosas.</p>
<p>Minhas irmãs e eu tentamos usar de delicadeza: &#8220;não tem, quem sabe, nenhuma <em>tarefa</em> pra ser feita?&#8221;</p>
<p>&#8220;Você aí, a de óculos&#8221;. A Sra. Peacock apontou pra minha irmã Gretchen. &#8220;Sua mãe falou que cês tem refri na geladeira. Por que você não vai pegar um lá pra mim&#8221;.</p>
<p>&#8220;Refri, Coca-Cola?&#8221;, a Gretchen perguntou.</p>
<p>&#8220;Serve&#8221;, a Sra. Peacock falou, &#8220;e bota numa caneca com gelo&#8221;.</p>
<p>Enquanto a Gretchen pegava a Coca-Cola ela me mandou fechar as cortinas. Pra mim, isso beirava a insanidade, e tentei ao máximo fazê-la mudar de idéia. &#8220;A varanda é a melhor parte do seu quarto&#8221;, eu disse, &#8220;você quer <em>mesmo</em> que eu as feche, com esse sol brilhando lá fora?&#8221;. Sim, ela queria.</p>
<p>Então ela pediu a sua mala. Minha irmã Amy botou a mala na cama e ficamos vendo a Sra. Peacock desamarrar a corda, meter a mão lá dentro e tirar uma varinha de plástico do tamanho de uma régua com uma garra na ponta. O negócio não era maior que a garra de um macaco, os dedos meio curvados pra dentro, como se tivessem travado enquanto imploravam por algo. Era uma coisinha nojenta, as unhas brilhavam de sebo, nós a veríamos bastante até o fim daquela semana. Desde aquele dia, se algum namorado da gente pede uma coçadinha eu e minhas irmãs nos contorcemos. &#8220;Se coça você na parede&#8221;, a gente fala, &#8220;arruma uma enfermeira, só não olha pra mim, eu já cumpri a minha pena&#8221;.</p>
<p>Ninguém conhecia aquela doença no pulso, do túnel do carpo, no fim dos anos 60, porém isso não significava que ela não existia. Só não havia um nome pra ela. Várias e várias vezes roçamos a garrinha nas costas da Sra. Peacock, seus dedos deixavam caminhos e em algumas vezes até feridas. &#8220;Pega leve&#8221;, ela dizia, com as alças da camisola nos cotovelos, seu lado do rosto esmagado contra a colcha dourada da cama. &#8220;Num sou feita de pedra&#8221;.</p>
<p>Isso era óbvio. Pedras não suam. Pedras não fedem ou ficam se coçando, elas certamente não tem pelinhos pretos pipocando entre as omoplatas. A gente comentou sobre isso com a Sra. Peacock, ela respondeu dizendo &#8220;Cês tem a mesma porcaria também, eles só não saíram ainda&#8221;.</p>
<p>Isso foi registrado literalmente no caderninho e lido alto nas diárias reuniões de cúpula que eu e minhas irmãs fazíamos no bosque atrás de casa. &#8220;Cês tem a mesma porcaria também, eles só não saíram ainda&#8221;. Isso soava assustador quando dito por ela, e ainda pior quando falado normalmente, sem o resmungo ou sotaque caipira.</p>
<p>&#8220;Não sabe falar inglês&#8221;, escrevi no caderninho de reclamações. &#8220;Não sabe ficar dois minutos sem usar a palavra &#8216;porra&#8217;. Não sabe cozinhar <del>porra</del> nenhuma&#8221;.</p>
<p>O trecho final não era bem verdade, mas não faria mal expandir o seu repertório. Picadinho, picadinho, picadinho, empurrado pra gente como se fosse bife de verdade. Ninguém comia sem merecer, o que significava ter que pegar bebidas pra ela, penteá-la ou passar a garrinha de macaco nas costas dela até que ela gemesse As refeições iam e viam &#8211; ela entupida demais de coca-cola e batata chips pra reparar nisso, até algum de nós ousar mencionar o fato. &#8220;Se cês tavam com fome, por que não falaram nada? Num sou mágica. Paranormal ou alguma porra dessas&#8221;.</p>
<p>Então ela saía correndo pela cozinha, mexendo os braços pra cima e pra baixo enquanto jogava a panela no fogo, botava carne moída dentro e tacava ketchup.</p>
<p>Minhas irmãs e eu sentávamos à mesa, mas a Sra. Peacock comia de pé, <em>igual uma vaca</em>, pensamos, <em>igual uma vaca, no telefone</em>: &#8220;diz pro Curtis pra mim que se ele não levar a Tanya na audiência do R.C. ele vai ter que se ver comigo <em>e</em> com o Gene Junior, tô falando sério&#8221;.</p>
<p>As ligações a lembravam que ela não estava no controle das açôes. Os eventos estavam chegando ao limite: aquela novela com o Ray, o negócio entre a Kim e a Lucille, e aqui estava ela, presa no meio do nada. Era assim que ela via a nossa casa: o fim do mundo. Alguns anos depois eu seria o primeiro a concordar com ela, mas quando eu tinha onze anos, e ainda podia sentir o cheiro das vigas de pinho atrás das paredes falsas, eu achava que não existia lugar melhor.</p>
<p>&#8220;Eu queria ver onde <em>ela</em> mora&#8221;, a minha irmã Lisa falou.</p>
<p>E então, como punição, nós vimos.</p>
<p><strong>Isso</strong> aconteceu no quinto dia, e foi culpa da Amy, pelo menos segundo a Sra. Peacock. Qualquer adulto responsável, qualquer um com crianças, teria tomado a culpa pra si. <em>Bom, tava marcado pra acontecer mais cedo ou mais tarde</em>, alguém pensaria. Uma menina de sete anos, com o braço já gasto por borracha após horas de coçadas, carregando aquela garrinha até o banheiro da suíte deixa a tal cair no chão. Os dedinhos se despedaçam, não restando nada, um pequeno punho destroçado no fim de uma varinha.</p>
<p>&#8220;Agora você conseguiu&#8221;, a Sra. Peacock falou. Todo mundo pra cama, sem jantar. Na manhã seguinte o Keith apareceu, de novo sem camisa. Ele buzinou na entrada da garagem e ela gritou com ele através da porta fechada pra que ele segurasse as pontas e esperasse.</p>
<p>A Gretchen então disse &#8220;eu não acho que ele está te ouvindo&#8221;, e a Sra. Peacock falou que ela ia ver só. Ela disse que nós todos iríamos ver só. Assim entramos no carro, quietos, o Keith contava uma história maluca sobre ele e alguém chamada Sherwood enquanto ele acelerava pra além da Raleigh que conhecíamos, até uma vizinhança com cachorros latindo e garagens de brita. As casas pareciam desenhos de criança, uns quadrados tortos com triângulos em cima. Uma porta, duas janelas. Imagine alguém botando uma árvore na frente e depois resolvendo apagá-la porque os galhos não são tão bonitos pelo trabalho que dão pra desenhar.</p>
<p>A casa da Sra. Peacock era dividida em duas: a dela nos fundos, e um tal Leslie morando na parte da frente. Um <em>homem</em> chamando Leslie, que estava de farda brincando de lutinha com um doberman perto da caixa do correio quando a gente chegou. Eu pensei que ele se retrairia ao olhar pra Sra. Peacock, mas ele acabou sorrindo e acenando, e ela acenou de volta pra ele. Éramos cinco crianças num banco de trás, crianças loucas pra denunciar que haviam sido sequestradas, mas o tal Leslie não reparou na gente mais do que o Keith havia reparado.</p>
<p>Quando o carro parou a Sra. Peacock se virou do banco da frente e nos disse que ela tinha algumas coisas pra resolver.</p>
<p>&#8220;Pode ir, a gente espera aqui&#8221;, nós falamos.</p>
<p>&#8220;Até parece&#8221;, pro que ela retrucou.</p>
<p>Começamos pelo lado de fora, pegando cocô de cachorro largados por aquele dobermann cujo nome parecia ser Rascal. A frente da casa era um campo minado, porém os fundos, que a Sra. Peacock cuidava, eram surpreendentemente normais, ou pra ser sincero até melhores. Havia um pequeno quintal, com uma fileira de flores baixas contornando ele, acho que eram Amor-Perfeito. Havia ainda mais flores no pátio da porta dela, a maioria em vasos de plástico fazendo companhia pra criaturinhas de cerâmica: um esquilo sem rabo e um sapo sorridente.</p>
<p>Eu imaginava a Sra. Peacock como uma pessoa a quem a palavra &#8220;beleza&#8221; não fazia sentido, entrar na parte dela da casa e ver aquilo cheio de bonecas foi impressionante. Devia haver uma centena delas ali, todas empilhadas num único quarto. Havia bonecas sentadas na televisão, bonecas grudadas de pé em cima do ventilador e um outro monte delas entulhadas em prateleiras do chão ao teto. Estranhei o fato de ela não as ter até separado por tamanho e tipo. Tinha até uma modelinho com vestido estiloso, eclipsada por um bebê chorão, ou o que parecia uma criança que havia chegado muito perto de uma panela, pontas dos cabelos queimadas e com uma cara desfigurada de tanto choro.</p>
<p>&#8220;A regra número um é que ninguém encosta em nada&#8221;, a Sra. Peacock disse. &#8220;Ninguém, por nada.&#8221;</p>
<p>Ela obviamente imaginava que a sua casa era algo especial, um paraíso para crianças, uma terra de encantamentos, mas pra mim ela parecia só um depósito.</p>
<p>&#8220;Escuro, quente <em>e</em> fedido&#8221; as minhas irmãs diriam também.</p>
<p>A Sra. Peacock tinha um daqueles porta-copos de parede, acima do criado-mudo dela. Do lado da porta do banheiro ela deixava as suas pantufas, com uma daquelas bonecas Magic Duende dentro de cada uma, seus cabelos pra trás como que soprados por um vendaval. &#8220;Olha só, é como se elas estivessem em lanchas!&#8221; ela nos disse. &#8220;É&#8230;&#8221; a gente falou, &#8220;que legal&#8230;&#8221;.</p>
<p>Então ela nos mostrou uma cozinha de brinquedo que estava em uma das prateleiras baixas. &#8220;A geladeirinha quebrou, então fiz outra usando uma caixa de fósforos. Se chegarem perto vocês conseguem ver&#8221;.</p>
<p>&#8220;Você mesma <em>fez</em> isso?&#8221; a gente disse pra ela, apesar da resposta ser óbvia. A lixa lateral de fósforo entregou tudo.</p>
<p>A Sra. Peacock estava claramente tentando ser uma boa anfitriã, mas eu queria que ela parasse com isso. A minha opinião sobre ela já havia sido formada, até mesmo em papel, e no final as pequenas gentilezas dela só manchariam a sua ficha. Como qualquer garoto na quinta-série, eu preferia que os meus vilões fossem maus e que permanecessem assim, que fossem mais Dráculas do que Frankensteins, que arruinou toda a história ao dar uma flor pra aquela garota camponesa. Ele meio que compensou isso ao afogar ela minutos depois, mas&#8230; mesmo assim, não era possível olhar pra ele do mesmo jeito novamente.</p>
<p>Eu e minhas irmãs não queríamos entender a Sra. Peacock. A gente só queria odiá-la, e nos sentimos aliviados quando ela tirou outro coçador do armário, um bem bom, pelo jeito. Esse não era maior que o anterior, mas a ponta era menos rústica e mais bem definida, como a mão de uma moça e não de um macaco. No momento em que ela pegou o coçador a suposta hospitalidade finalmente desapareceu. Ela arrancou a camisa masculina que estava usando sobre a camisola e se posicionou na cama, cercada de bonecas as quais ela se referia como &#8220;bebêzinhas&#8221;. A Gretchen ficou com o primeiro round, o resto da gente foi lá pra fora arrancar ervas daninhas naquele sol de rachar.</p>
<p>&#8220;Graças a deus&#8221; eu falei pra Lisa. &#8220;Eu já tava preocupado que a gente teria que ter pena dela&#8221;.</p>
<p><strong>Quando</strong> éramos crianças achávamos que a Sra. Peacock era maluca, um termo genérico que usávamos pra qualquer um que não notasse os nossos talentos. Como adultos, porém, analisando melhor a gente chega a pensar se ela não era clinicamente depressiva. As drásticas alterações de humor, tantas horas dormindo, uma melancolia tão forte que ela era incapaz de se vestir ou se limpar &#8211; por isso usava camisolas, por isso aquele cabelo cada vez mais ensebado e que deixou uma mancha permanente na colcha dourada dos meus pais.</p>
<p>&#8220;Fico imaginando se ela já foi internada alguma vez&#8221;, a Lisa disse um dia. &#8220;Talvez ela passou por tratamentos de choque, era o que eles faziam naquela época, coitada&#8221;.</p>
<p>Quem dera a gente tivesse sido sensíveis desse jeito quando éramos crianças, mas a gente já tinha demais com o que se preocupar, seria impensável a gente ligar pra uma caixa de fósforos velha mais do que ligávamos pra outra coisa qualquer. Nossos pais voltaram das férias e antes que pudessem botar o pé pra fora do carro nós pulamos em cima deles, um bando, todo mundo falando ao mesmo tempo. &#8220;Ela levou a gente pro barraco dela e nos fez catar cocô de cachorro!&#8221;, &#8220;uma vez ela botou a gente na cama sem janta!&#8221;, &#8220;ela falou que o banheiro da suíte era feio, e que é estúpido ter um ar-condicionado!&#8221;</p>
<p>&#8220;Tá, tá&#8221; a nossa mãe falou. &#8220;Meu deus, se acalmem!&#8221;</p>
<p>&#8220;Ela fez a gente coçar as costas dela até os nosso braços quase caírem!&#8221;, &#8220;ela fazia picadinho pra comer com pão toda noite, e quando o pão acabou ela disse pra gente comer com bolachas!&#8221;</p>
<p>A gente ainda tava falando quando a Sra. Peacock saiu da mesa do café e foi pra garagem. Ela havia se arrumado, pela primeira vez, estava até de sapatos, mas já era meio tarde pra fingir ser alguém normal. Na presença da minha mãe, que estava bronzeada e bonitona, ela parecia ainda mais doente, quase sinistra, aquela boca torta num sorriso bizarro.</p>
<p>&#8220;Ela ficou a semana toda na cama e só foi lavar as roupas ontem à noite!&#8221;</p>
<p>Acho que eu estava esperando alguma reação mais violenta da minha mãe. Como explicar a minha decepção quando, ao invés de esbofetear a Sra. Peacock na cara, elas se olharam nos olhos e ela disse &#8220;falem sério, eu não acredito em nada disso&#8221;? Era o tipo de frase que ela usava quando acreditava em tudinho, mas estava cansada demais pra ligar.</p>
<p>&#8220;Mas ela <em>sequestrou</em> a gente!&#8221;</p>
<p>&#8220;Bom, azar dela&#8221;, e a nossa mãe acompanhou a Sra. Peacock pra dentro e deixou a gente ali, parados na garagem. &#8220;Eles não são terríveis?&#8221; ela disse, &#8220;juro por deus, eu não sei como você aguentou eles por uma semana toda&#8221;.</p>
<p>&#8220;Você não sabe como <em>ela</em> aguentou <em>a gente</em>?&#8221;</p>
<p>E a porta fez <em>tum!</em>, bem na nossa cara, enquanto a nossa mãe levava sua visita pra sentar na mesinha e beber alguma coisa.</p>
<p>Lá dentro da janela elas pareciam atrizes num palco, duas personagens que pareciam opostas e de repente descobrem que tem muito em comum: uma infância difícil, o gosto por vinhos baratos e um desprezo mútuo pelo público jovem e mal criado que vaiava por detrás das cortinas.</p>
<p><strong>UPDATE:</strong> arrumei um sexismo em &#8220;dois personagens&#8221; e aceitei a sugestão de título do Felipe.</p>
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		<title>the understudy original</title>
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		<pubDate>Sat, 07 Mar 2009 23:10:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>caio1982</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>O conto a seguir é do <a href="http://www.amazon.com/When-You-Are-Engulfed-Flames/dp/0316143472">novo livro do David Sedaris</a> que <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/comum/mapas2.asp?id=02">comprei por impulso quando tava em SP</a> outro dia. Falei via SMS pro <a href="http://www.felipearruda.com/">Felipe</a> (<a href="http://twitter.com/felipemiguel/statuses/1131574783">que me indicou o Sedaris inicialmente</a>) que eu tava com o pocket book em inglês na minha mão. Quando vi tava com ele na minha mochila, não esperei o Felipe indicar querer o livro pra ele e não me arrependo porque os contos são muito massa. Um dos primeiros contos do livro <a href="http://books.google.com/books?id=ZKHCIAAACAAJ&#038;dq=When+You+Are+Engulfed+In+Flames">When You Are Engulfed In Flames</a> era engraçadinho e tal e procurei online pra reler, mas não achei. <a href="http://twitter.com/caio1982/status/1294283448">Resolvi digitar ele todo</a> só pra tê-lo em algum formato editável pra uma futura tradução amadora: é uma história sobre uma babá <a href="http://www.urbandictionary.com/define.php?term=white%20trash">white trash americana</a> e as recordações de algumas crianças sobre ela. No livro o conto tem 3 ou 4 partes e é só The Understudy, mas na <a href="http://www.newyorker.com/search/query?query=authorName:%22David%20Sedaris%22">publicação original em 2006 no The New Yorker</a> ele se chama The Understudy: A Babysitter&#8217;s Brief Reign Of Terror. Aqui vai o texto completo em inglês, inclusive com todas as bizarrices de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Quotation_mark#Punctuation">quoting no estilo americano</a> que eu detesto e tudo o mais:</p>
<p><strong>In</strong> the spring of 1967, my mother and father went out of town for the weekend and left my fours sisters and me in the company of a woman named Mrs. Byrd, who was old and black and worked as a maid for one of our neighbors. She arrived at our house on a Friday afternoon, and, after carrying her suitcase to my parent&#8217;s bedroom, I gave her a little tour, the way I imagined they did in hotels. &#8220;This is your TV, this is your private sundeck, and over here you&#8217;ve got a bathroom &#8211; just yours and nobody else&#8217;s.&#8221;</p>
<p>Mrs. Byrd put her hand to her cheek. &#8220;Somebody pinch me. I&#8217;m about to fall out.&#8221;</p>
<p>She cooed again when I opened a dresser drawer and explained that when it came to coats and so forth we favored a little room called a closet. &#8220;There are two of them against the wall there, and you can use the one on the right.&#8221;</p>
<p>It was, I thought, a dream for her: <em>your</em> telephone, <em>your</em> massive bed, <em>your</em> glass-doored shower stall. All you had to do was leave it a little cleaner than you found it.</p>
<p>A few months later, my parents went away again and left us with Mrs. Robbins, who was also black, and who, like Mrs. Byrd, allowed me to see myself as a miracle worker. Night fell, and I pictured her kneeling on the carpet, her forehead grazing my parents&#8217; gold bedspread. &#8220;Thank you, Jesus, for these wonderful white people and all that they have given me this fine weekend.&#8221;</p>
<p>With a regular teenage babysitter, you horsed around, jumped her on her way out of the bathroom, that sort of thing, but with Mrs. Robbins and Mrs. Byrd we were respectful and well behaved, not like ourselves at all. This made our parents&#8217; getaway weekend a getaway for us as well &#8211; for what was a vacation but a chance to be someone different?</p>
<p>In early September of that same year, my parents joined my aunt Joyce and uncle Dick for a week in the Virgin Islands. Neither Mrs. Byrd nor Mrs. Robbins was available to stay with us, and so my mother found someone named Mrs. Peacock. Exactly <em>where</em> she found her would be speculated on for the remainder of our childhoods.</p>
<p>&#8220;Has Mom ever been to a women&#8217;s prison?&#8221; my sister Amy would ask.</p>
<p>&#8220;Try a <em>man&#8217;s</em> prison,&#8221; Gretchen would say, as she was never convinced that Mrs. Peacock was a legitimate female. The &#8220;Mrs.&#8221; part was a lie anyway, that much we knew.</p>
<p>&#8220;She just <u>says</u> she was married so people will believe in her!!!!&#8221; This was one of the insights we recorded in a notebook while she was staying with us. There were pages of them, all written in a desperate scrawl, with lots of exclamation points and underlined words. It was the sort of writing you might do when a ship was going down, the sort that would give your surviving loved ones an actual chill. &#8220;If only we&#8217;d known,&#8221; they&#8217;d moan. &#8220;Oh, for the love of God, if only we had known.&#8221;</p>
<p>But what was there to know, really? Some fifteen-year-old offers to watch yours kids for the night and, sure, you ask her parents about her, you nose around. But with a grown woman you didn&#8217;t demand a reference, especially if the woman was white.</p>
<p>Our mother could never remember where she had found Mrs. Peacock. &#8220;A newspaper ad,&#8221; she&#8217;d say, or, &#8220;I don&#8217;t know, maybe she sat for someone at the club.&#8221;</p>
<p>But who at the club would have hired such a creature? In order to become a member you had to meet certain requirements, one of them being that you did not know people like Mrs. Peacock. You did not go to places where she ate or worshiped, and you certainly didn&#8217;t give her the run of your home.</p>
<p><strong>I</strong> smelled trouble the moment her car pulled up, a piece of junk driven by a guy with no shirt on. He looked just old enough to start shaving, and remained seated as the figure beside him pushed open the door and eased her way out. This was Mrs. Peacock, and the first thing I noticed was her hair, which was the color of margarine and fell in waves to the middle of her back. It was the sort of hair you might find on a mermaid, completely wrong for a sixty-year-old woman who was not just heavy but fat, and moved as if each step might be her last.</p>
<p>&#8220;Mom!&#8221; I called, and, as my mother stepped out of the house, the man with no shirt backed out of the driveway and peeled off down the street.</p>
<p>&#8220;Was that your husband?&#8221; my mother asked, and Mrs. Peacock looked at the spot where the car had been.</p>
<p>&#8220;Naw,&#8221; she said. &#8220;That&#8217;s just Keith.&#8221;</p>
<p>Not &#8220;my nephew Keith&#8221; or &#8220;Keith, who works at the filling station and is wanted in five states,&#8221; but &#8220;just Keith,&#8221; as if we had read a book about her life and were expected to remember all the characters.</p>
<p>She&#8217;d do this a lot over the coming week, and I would grow to hate her for it. Someone would phone the house, and after hanging up she&#8217;d say, &#8220;So much for Eugene&#8221; or &#8220;I told Vicky not to call me here no more.&#8221;</p>
<p>&#8220;Who&#8217;s Eugene?&#8221; we&#8217;d ask. &#8220;What did Vicky do that was so bad?&#8221; And she&#8217;d tell us to mind our own business.</p>
<p>She had this attitude, not that she was better then us but that she was as good as us &#8211; and that simply was not true. Look at her suitcase, tied shut with hope! Listen to her mumble, not a clear sentence to be had. A polite person would express admiration when given a tour of the house, but aside from a few questions regarding the stovetop Mrs. Peacock said very little and merely shrugged when shown the master bathroom, which had the word &#8220;master&#8221; in it and was supposed to make you feel powerful and lucky to be alive. <em>I&#8217;ve seen better</em>; her look seemed to say, but I didn&#8217;t for one moment believe it.</p>
<p>The first two times my parents left for vacation, my sister and I escorted them to the door and said that we would miss them terribly. It was just an act, designed to make us look sensitive and English, but on this occasion we meant it. &#8220;Oh, stop being such babies,&#8221; our mother said. &#8220;It&#8217;s only a week.&#8221; Then she gave Mrs. Peacock the look meaning &#8220;Kids. What are you going to do?&#8221;</p>
<p>There was a corresponding look that translated to &#8220;You tell me,&#8221; but Mrs. Peacock didn&#8217;t need it, for she knew exactly what she was going to do: enslave us. There was no other word for it. An hours after my parents left, she was lying facedown on their bed, dressed in nothing but her slip. Like her skin, it was the color of Vaseline, an uncolor really, which looked even worse with yellow hair. Add to this her great bare legs, which were dimpled at the inner knee and streaked throughout with angry purple veins.</p>
<p>My sisters and I attempted diplomacy. &#8220;Isn&#8217;t there, perhaps, some <em>work</em> to be done?&#8221;</p>
<p>&#8220;You there, the one with the glasses.&#8221; Mrs. Peacock pointed at my sister Gretchen. &#8220;Your mama mentioned they&#8217;s some sodie pops in the kitchen. Go fetch me one, why don&#8217;t you.&#8221;</p>
<p>&#8220;Do you mean coke?&#8221; Gretchen asked.</p>
<p>&#8220;That&#8217;ll do,&#8221; Mrs. Peacock said. &#8220;And put it in a mug with ice in it.&#8221;</p>
<p>While Gretchen got the Coke, I was instructed to close the drapes. It was, to me, an idea that bordered on insanity, and I tried my best to talk her out of it. &#8220;The private deck is your room&#8217;s best feature,&#8221; I said. &#8220;Do you <em>really</em> want to block it out while the sun&#8217;s still shining?&#8221;</p>
<p>She did. Then she wanted her suitcase. My sister Amy put it on the bed, and we watched as Mrs. Peacock untied the rope and reached inside, removing a plastic hand attached to a foot-long wand. The business end was no bigger than a monkey&#8217;s paw, the fingers bent slightly inward, as if they had been frozen in the act of begging. It was a nasty little thing, the nails slick with grease, and over the coming week we were to see a lot of it. To this day, should any of our boyfriends demand a back-scratch, my sisters and I recoil. &#8220;Brush yourself against a brick wall,&#8221; we say. &#8220;Hire a nurse, but don&#8217;t look at me. I&#8217;ve done my time.&#8221;</p>
<p>No one spoke of carpal tunnel syndrome in the late 1960s, but that doesn&#8217;t mean it didn&#8217;t exist. There just wasn&#8217;t a name for it. Again and again we ran the paw over Mrs. Peacock&#8217;s back, the fingers leaving white trails and sometimes welts. &#8220;Ease up,&#8221; she&#8217;d say, the straps of her slip lowered to her forearms, the side of her face mashed flat against the gold bedspread. &#8220;I ain&#8217;t made of stone, you know.&#8221;</p>
<p>That much was clear. Stone didn&#8217;t sweat. Stone didn&#8217;t stink or break out in a rash, and it certainly didn&#8217;t sprout little black hairs between its shoulder blades. We drew this last one to Mrs. Peacock&#8217;s attention, and she responded, saying, &#8220;Y&#8217;all&#8217;s got the same damn thing, only they ain&#8217;t poked out yet.&#8221;</p>
<p>That one was written down verbatim and read aloud during the daily crisis meetings my sisters and I had taken to holding in the woods behind our house. &#8220;Y&#8217;all&#8217;s got the same damn thing, only they ain&#8217;t poked out yet.&#8221; It sounded chilling when said in her voice, and even worse when recited normally, without the mumble and the country accent.</p>
<p>&#8220;Can&#8217;t speak English,&#8221; I wrote in the complaint book. &#8220;Can&#8217;t go two minutes without using the word &#8216;damn.&#8217; Can&#8217;t cook worth a <del>damn</del> hoot.&#8221;</p>
<p>The last part was not quite true, but it wouldn&#8217;t have hurt her to expand her repertoire. Sloppy joe, sloppy joe, sloppy joe, held over our heads as it it were steak. Nobody ate unless they earned it, which meant fetching her drinks, brushing her hair, driving the monkey paw into her shoulders until she moaned. Mealtime came and went &#8211; her too full of Coke and potato chips to notice until one of us dared to mention it. &#8220;If y&#8217;all was hungry, why didn&#8217;t you say nothing? I&#8217;m not a mind reader, you know. Not a psychic or some damn thing.&#8221;</p>
<p>Then she&#8217;d slam around the kitchen, her upper arms jiggling as she threw the pan on the burner, pitched in some ground beef, shook ketchup into it.</p>
<p>My sisters and I sat at the table, but Mrs. Peacock ate standing, <em>like a cow</em>, we though, <em>a cow with a telephone</em>: &#8220;You tell Curtis for me that if he don&#8217;t run Tanya to R.C.&#8217;s hearing, he&#8217;ll have to answer to both me <em>and</em> Gene Junior, and that&#8217;s no lie.&#8221;</p>
<p>Her phone calls reminded her that she was away from the action. Events were coming to a head: the drama with Ray, the business between Kim and Lucille, and here she was, stuck in the middle nowhere. That&#8217;s how she saw our house: the end of the earth. In a few years&#8217; time, I&#8217;d be the first to agree with her, but when I was eleven, and you could still smell the fresh pine joists from behind the Sheetrocked walls, I thought there was no finer place to be.</p>
<p>&#8220;I&#8217;d like to see where <em>she</em> lives,&#8221; I said to my sister Lisa.</p>
<p>And then, as punishment, we did see.</p>
<p><strong>This</strong> occurred on day five, and was Amy&#8217;s fault &#8211; at least according to Mrs. Peacock. Any sane adult, anyone with children, might have taken the blame upon herself. <em>Oh, well</em>, she would have thought. <em>It was bound to happen sooner or later</em>. Seven-year-old girl, her arm worn to rubber after hours of back-scratching, carries the monkey paw into the master bathroom, where it drops from her hand and falls to the tile floor. The fingers shatter clean off, leaving nothing &#8211; a jagged little fist at the end of a stick.</p>
<p>&#8220;Now you done it,&#8221; Mrs. Peacock said. All of us to bed without supper. And the next morning Keith pulled up, still with no shirt on. He honked in the driveway, and she shouted at him through the closed door to hold his damn horses.</p>
<p>&#8220;I don&#8217;t think he can hear you,&#8221; Gretchen said, and Mrs. Peacock told her she&#8217;d had all the lip she was going to take. She&#8217;d had all the lip she was going to take from any of us, and so we were quiet as we piled into the car, Keith telling a convoluted story about him and someone named Sherwood as he sped beyond the Raleigh we knew and into a neighborhood of barking dogs and gravel driveways. The houses looked like something a child might draw, a row of shaky squares with triangles on top. Add a door, add two windows. Think of putting a tree in the front yard, and then decide against it because branches aren&#8217;t worth the trouble.</p>
<p>Mrs. Peacock&#8217;s place was divided in half, her in the back, and someone named Leslie living in the front. A <em>man</em> named Leslie, who wore fatigues and stood by the mailbox play-wrestling with a Doberman pinscher as we drove up. I thought he would scowl at the sight of Mrs. Peacock, but instead he smiled and waved, and she waved in return. Five children wedged into the backseat, children just dying to report that they&#8217;d been abducted, but Leslie didn&#8217;t seem to notice us any more than Keith had.</p>
<p>When the car stopped, Mrs. Peacock turned around in the front seat and announced that she had some work that needed doing.</p>
<p>&#8220;Go ahead,&#8221; we told her. &#8220;We&#8217;ll wait here.&#8221;</p>
<p>&#8220;Like fun you will,&#8221; she said.</p>
<p>We started outdoors, picking up turds deposited by the Doberman, whose name turned out to be Rascal. The front yard was mined with them, but the back, which Mrs. Peacock tended, was surprisingly normal, better than normal, really. There was a small lawn and, along its border, a narrow bed of low-lying flowers &#8211; pansies, I think. There were more flowers on the patio outside her door, most of them in plastic pots and kept company by little ceramic creatures: a squirrel with its tail broken off, a smiling toad.</p>
<p>I&#8217;d thought of Mrs. Peacock as a person for whom the word &#8220;cute&#8221; did not register, and so it was startling to enter her half of the house and find it filled with dolls. There must have been a hundred of them, all squeezed into a single room. There were dolls sitting on the television, dolls standing with their feet glued to the top of the electric fan, and tons more crowded onto floor-to-ceiling shelves. Strange to me was that she hadn&#8217;t segregated them according to size or quality. Here was a fashion model in a stylish dress, dwarfed by a cheap bawling baby or a little who&#8217;d apparently come too close to the hot plate, her hair singed off, her face disfigured into a frown.</p>
<p>&#8220;First rule is that nobody touches nothing,&#8221; Mrs. Peacock said. &#8220;Not nobody and not for no reason.&#8221;</p>
<p>She obviously thought that her home was something special, a children&#8217;s paradise, a land of enchantment, but to me it was just overcrowded.</p>
<p>&#8220;<em>and</em> dark,&#8221; my sisters would later add. &#8220;<em>and</em> hot <em>and</em> smelly.&#8221;</p>
<p>Mrs. Peacock had a Dixie cup dispenser mounted to the wall above her dresser. She kept her bedroom slippers beside the bathroom door, and inside each one was a little troll doll, its hair blown back as if by a fierce wind. &#8220;See,&#8221; she told us. &#8220;It&#8217;s like they&#8217;s riding in boats!&#8221;</p>
<p>&#8220;Right,&#8221; we said. &#8220;That&#8217;s really something.&#8221;</p>
<p>She then pointed out a miniature kitchen set displayed on one of the lower shelves. &#8220;The refrigerator broke, so I made me another one out of a matchbox. Get up close, and y&#8217;all can look at it.&#8221;</p>
<p>&#8220;You <em>made</em> this?&#8221; we said, though of course it was obvious. The strike pad gave it away.</p>
<p>Mrs. Peacock was clearly trying to be a good hostess, but I wished she would stop. My opinion of her had already been formed, was written on paper, even, and factoring in her small kindnesses would only muddy the report. Like any normal fifth grader, I preferred my villains to be evil and stay that way, to act like Dracula rather than Frankenstein&#8217;s monster, who ruined everything by handing that peasant girl a flower. He sort of made up for it by drowning her a few minutes later, but, still, you couldn&#8217;t look at him the same way again. My sisters and I didn&#8217;t want to understand Mrs. Peacock. We just wanted to hate her, and so we were relieved when she reached into her closet and withdrew another back-scratcher, the good one, apparently. It was no larger that the earlier model, but the hand was slimmer and more clearly defined, that of a lady rather than a monkey. The moment she had it, the hostess act melted away. Off came the man&#8217;s shirt she&#8217;d worn over her slip, and she took up her position on the bed, surrounded by the baby dolls she referred to as &#8220;doll babies.&#8221; Gretchen was given the first shift, and the rest of us were sent outside to pull weeds in the blistering sun.</p>
<p>&#8220;Thank God,&#8221; I said to Lisa. &#8220;I was worried for a minute there that we&#8217;d have to feel sorry for her.&#8221;</p>
<p><strong>As</strong> children we suspected that Mrs. Peacock was crazy, a catchall term we used for anyone who did not recognize our charms. As adults, though, we narrow it down and wonder if she wasn&#8217;t clinically depressed. The drastic mood swings, the hours of sleep, a gloom so heavy she was unable to get dressed or wash herself &#8211; thus the slip, thus the hair that grew greasier and greasier as the week progressed and left a permanent stain on our parent&#8217;s gold bedspread.</p>
<p>&#8220;I wonder if she&#8217;d been institutionalized,&#8221; Lisa will say. &#8220;Maybe she had shock treatments, which is what they did back then, the poor thing.&#8221;</p>
<p>We&#8217;d like to have been that compassionate as children, but we already had our list, and it was unthinkable to disregard it on account of a lousy matchbox. Our parents returned from their vacation, and before they even stepped out of the car we were upon them, a mob, all of us talking at the same time. &#8220;She made us go to her shack and pick up turds.&#8221; &#8220;She sent us to bed one night without supper.&#8221; &#8220;She said the master bathroom was ugly, and that you were stupid to have air-conditioning.&#8221;</p>
<p>&#8220;All right,&#8221; our mother said. &#8220;Jesus, calm down.&#8221;</p>
<p>&#8220;She made us scratch her back until our arms almost fell off.&#8221; &#8220;She cooked sloppy joe every night, and when we ran out of buns she told us to eat it on crackers.&#8221;</p>
<p>We were still at it when Mrs. Peacock stepped from the breakfast nook and out into the carport. She was dressed, for once, and even had shoes on, but it was too late to play normal. In the presence of my mother, who was tanned and pretty, she looked all the more unhealthy, sinister almost, her mouth twisted into a freaky smile.</p>
<p>&#8220;She spent the whole week in bed and didn&#8217;t do laundry until last night.&#8221;</p>
<p>I guess I expected a violent showdown. How else to explain my disappointment when, instead of slapping Mrs. Peacock across the face, my mother looked her in the eye, and said, &#8220;Oh, come on. I don&#8217;t believe that for a minute.&#8221; It was the phrase she used when she believed every word of it but was too tired to care.</p>
<p>&#8220;But she <em>abducted</em> us.&#8221;</p>
<p>&#8220;Well, good for her.&#8221; Our mother led Mrs. Peacock into the house and left my sisters and me standing in the carport. &#8220;Aren&#8217;t they just horrible?&#8221; she said. &#8220;Honest to God, I don&#8217;t know how you put up with them for an entire week.&#8221;</p>
<p>&#8220;You don&#8217;t know how <em>she</em> put up with <em>us</em>?&#8221;</p>
<p><em>Slam!</em> went the door, right in our faces, and then our mom sat her guest down in the breakfast nook and offered her a drink.</p>
<p>Framed through the window, they looked like figures on a stage, two characters who seem like opposites and then discover they have a lot in common: a similarly hard upbringing, a fondness for the jugged Burgundies of California, and a mutual disregard for the rowdy matinee audience, pitching their catcalls from beyond the parted curtain.</p>
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